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Quinta-Feira, 11 de Março de 2010.

São João de Meriti


A Cultura na Baixada
Prof. Ediélio Mendonça
Diretor do Teatro Procópio Ferreira
em Duque de Caxias



Na foto vemos um grupo de teatro amador com a peça
"Quarto de Empregada" de Roberto Freire.
Teatro Armando Mello. 1970. Duque de Caxias.
Ao centro o teatrólogo Ediélio de Mendonça.

Saibam os senhores que assim como quase toda a História do Brasil, também a História da Baixada, no que concerne à arte e à cultura, tem pontos obscuros até hoje não muito explicáveis que requer uma revisita constante à pesquisa. Esta introdução é para estabelecer uma premissa básica de que o painel que iremos traçar neste encontro carece de alguns dados mais científicos, muita das vezes por falta de elementos de pesquisa, que estão apoiados muito mais na tradição oral que na certeza oficial das informações que aqui serão oferecidos.

Provavelmente cursos como este de História da Baixada e outros que poderão surgir em torno do tema, desfavorecido em alguns aspectos, mas que é sempre presente nas manifestações artísticas do seu povo.

Sendo assim, poderia dizer que a cultura na Baixada, com maior projeção, aqui se instala ainda de forma irregular no início deste século que está terminando, com toda expansão regional que se estabelece no que hoje chamamos de Estado. A vivência e a sobrevivência no centro do Rio de Janeiro (Capital do Brasil), torna-se difícil fazendo com que a população se embrenhasse pela periferia fundando os bairros e até alguns municípios próximos ao centro do Rio, próximos aí dentro de uma visão atual. Junto a este emergente êxodo dos brasileiros de outros estados, principalmente o que comumente se chama de nordestinos. O sonho da cidade-grande, alimentando de esperança os que vinham de outras paragens para se estabelecer na capital do Brasil. Normalmente pessoas de baixo poder econômico que ao se localizar nos principais municípios da Baixada, se agregavam formando verdadeiras comunidades que passavam a trocar experiências da cultura de cada estado a qual pertenciam. Neste período o poder político se instaura imitando o processo dos senhores de terra e dos engenhos dos setores mineiros e nordestinos. Um dos mais atuantes e, para aquela época, um verdadeiro guru, foi o mitológico e folclórico Tenório Cavalcante ao fundar uma comunidade que logo passa a se chamar Bairro do Pantanal, em Duque de Caxias. Torna-se um líder, cujo objetivo foi alvo de muitas controvérsias, polêmicas a parte, e não adianta aqui contextualizar o lado político, mas sim admitir que era amado pelo povo, que passava a vê-lo como mecenas, pois ele vem incentivar a transformação da cultura trazida pelos migrantes em realidade mais próxima do sudeste.

Em fins da década de 60 presenciei esta ascendência e este poderio quando recém-saído da faculdade de pedagogia fui coordenador do turno diurno e noturno do Colégio Maria Tenório, que ainda existe, fundado pelo "caudilho ou matador de bandidos" como a imprensa marrom da época o classificava. Outros mecenas também se espalhavam por outros municípios e cito o nome de Tenório, porque foi o mais famoso e sua fama atravessou fronteira.

Com esta ebulição social dos cinqüenta primeiros anos deste século, as manifestações culturais se expandem, mesmo que de uma forma tímida, porque a elite dominante achava que aquilo era apenas "coisa do povo". Diversa tendência folclórica se interliga em quase todas as comunidades. O reisado, o frevo, a religiosidade afro-baiana vão se cruzando de modo mais intenso formando verdadeiros grupos ou agremiações. Os que queriam se adaptar aos costumes do sudeste fundavam os blocos de samba similares aos que já existiam. A partir das reuniões no terreiro da tia Ciata, na Praça XI, de onde saíram os bambas do samba, que depois fundaram suas próprias escolas.

Em qualquer histórico de escolas de samba da Baixada, como Unidos da Ponte de São João de Meriti, Beija Flor de Nilópolis e Grande Rio de Duque de Caxias, que brilham anualmente na Marquês de Sapucaí, está presente a importância destes blocos fundadores na formação destes que fazem, como os turistas dizem, o grande espetáculo da terra.

Paralelo à evolução do samba, os terreiros de candomblé ou umbanda, onde no caráter lúdico e de transe das próprias seitas ou religiões, descobre-se o grande espaço de encontro dos nossos primeiros sambistas. Começa aí a ascensão do povo, misturando-se com a elite e despertando nessa mesma elite, primeiramente por curiosidade e depois por adesão total, o interesse da sociedade por outras manifestações culturais fora do seu eixo de conhecimento: Dois Zeladores ou Pais de Santo se destacam: em São João de Meriti, "seu Miguel Grosso", cujas festas eram comentadas dias e dias após os eventos. Depois das cerimônias religiosas a bebida e a comida (quase toda baiana não só devido à crença como também pela origem natal dos referidos) eram suporte para o samba de roda, base do pagode fundo de quintal, constante , passados os anos, de qualquer festa pagã. O outro, em Duque de Caxias, foi o "seu Joãozinho da Gomeia", de projeção internacional, devido às suas várias incursões em outras áreas e costumes que se infiltravam entre os ricos e famosos da época, chegando a ter filhos de santo estrangeiros. Viva "O Mindareuá" ou "a francesa" ambos apelidos, diplomada pela SORBONE, em Antropologia, mora em um sítio em Santa Cruz da Serra, distrito de D. Caxias. Corajoso e inteligente, seu Joãozinho manteve por 30 anos seu barracão no bairro Jacatirão. Fundou a Cia. de Dança folclórica com a coreógrafa e bailarina Mercedes Baptista inaugurando os passos marcados num desfile de escola de samba.

Seguindo a história e as transformações sociais ocorridas no mundo, surge uma classe média atuante que vai intermediar as classes ricas e pobres. Chegando à Baixada, os "novos ricos", com licença da terminologia moderna, vão exigir das sociedades abastadas uma compreensão e atenuação maiores para a grande discriminação que o povo pobre sofria.

Num arremedo da sociedade carioca, a nova classe cria uma geografia urbana dentro dos próprios municípios fosse pelo poder financeiro ou pela ostentação. A cultura e as artes vão juntas. Surgem as feiras livres, locais onde artistas, desconhecidos, iriam experimentar suas artes, antes confinadas a guetos ou comunidades. Em especial, as artes plásticas, com motivos folclóricos expostos nas barracas desmontáveis a cada dia da semana em bairros diferentes, e a música apresentada a céu aberto numa réplica mais sofisticada das feiras medievais. A literatura de cordel, os repentes e cantoria jocosa ou de duplo sentido, oriundos da cultura nordestina, oferecem grandes oportunidades aos artistas até então sem espaço de ação. O movimento conduzido de forma aleatória (nada de empresários, cachê, no máximo o chapéu rodado ao final de cada função/espetáculo) descobre uma cultura popular, autêntica e inaugurando, pelo sudeste, os sucessos das duplas sertanejas contemporâneas. A dupla Jararaca e Ratinho inicia sua trajetória pela Baixada, depois enveredando por caminhos de maior sucesso, com apresentações nas rádios cariocas famosas como Nacional, Tupi, Mayrink Veiga, nos determinantes e ruidosos programas de auditório. Eram admirados até pelo pré-ditador Getúlio Vargas. Suas composições vão para o exterior e pelo menos uma delas "Mamãe eu quero" marchinha de carnaval, teve inúmeras gravações fora do Brasil chegando a fazer parte até da trilha sonora de filme americano. Mesmo com o ritmo e a idéia inicial da canção, alterada era a Baixada, o Brasil invadindo sonoramente o mundo.

Parte do sucesso desta dupla e de outras de menor expressividade, deve-se, também, ao advento do rádio no Brasil, que tinha a mesma força da televisão atual, com suas novelas e programas populares. Na Baixada além dos serviços de alto-falantes instalados em algumas comunidades, as rádios Solimões de Nova Iguaçu e Difusora de Duque de Caxias agregada ao jornal Luta Democrática" ambas de propriedade de Tenório Cavalcante, foram decisivas para a descoberta e confirmação do talento de artistas e desconhecidos.

O Teatro naquele momento passa por transformações, novamente tendo como ponto de partida o Rio de Janeiro. A semana de Arte Moderna em 1922, a geração Trianon por 4 décadas da lª metade do século, as Companhias de grande Atores e a explosão da dramaturgia da obra de Nelson Rodrigues possibilitam e induzem a um maior interesse pelas artes cênicas. Era comum a prática do teatro amador em quase todas os bairros do Rio de Janeiro. Um teatro calcado na experiência das primeiras companhias pré-profissionalização cariocas, vem para a Baixada com grupos que sem espaço próprio, se reuniam após o jantar, ou nos fins de semana, nas casas de famílias fluminenses com organização próxima ao de um clube de futebol, com presidente, diretor, atas de reuniões, caixinha financeira e uma mistura eclética de todas as classes sociais. Os espetáculos tinham poucas apresentações, com representações, mais constantes nos palcos de clubes e o resultado artístico, visto com os olhos de hoje, era discutível, mas plantavam semente, que renderiam bons frutos, futuramente. Cito alguns nomes, muitos deles em plena atividade, como Lais Costa Velho, Elizabeth Sander, Edson Alvaredo, Barbosa Leite, Elcio Giuponni, Armando Mello, Francisco Rodrigues, Edegar Silva e outros, ressaltando que em dose projetiva menor tem a mesma importância de nomes como Conchita Mascarenhas, Procópio Ferreira, Margarida Max, Jaime Costa, Dulcina, Dercy Gonçalves, Ernani Fornari, Gastão Tojeiro, Eduardo Viana, Abigail Maia (artistas cariocas) para implantação de um teatro mais oficial na baixada.

Caminhando para década de 60, encontra-se o teatro de que os citados acima tinham sido precursores, se acentuando com mais intensidade. A juventude pré-revolução era de 60, era inquieta e grupos teatrais vão se formando ligados a maioria deles às escolas de currículo convencional ou clubes.

Havia uma busca de renovação e uma conseqüente necessidade de espaços cênicos para efetivarem suas experiências. Os costumes e os comportamentos eram outros que se tornavam um desafio para artistas iniciantes, que ousavam vencer barreiras por parte da geração antiga, que via tudo que era novo com um certo temor. Era um período de ensaio das grandes manifestações que iriam eclodir na década posterior.

De uma forma primária surgiram os primeiros festivais de teatro amador e a competição ficaria acirrada diante do surgimento de diversos grupos. Os colégios Afrânio Peixoto em Nova Iguaçu e o Casimiro de Abreu em Duque de Caxias e a AJA (Associação de Jovens Amigos) da Igreja Santo Antônio em Duque de Caxias, também foram decisivos para criação de espaços cênicos oficiais. Nos dois colégios citados eram improvisados palcos e platéias e em pouco tempo as montagens teatrais já ultrapassavam o público colegial se estendendo para espectadores da comunidade.

Na Igreja de Santo Antônio em palco do salão de festas da diocese as experiências se sucediam, num grupo formado por jovens estudantes em 1962, iniciei minha trajetória artística como diretor do grupo do colégio Casimiro de Abreu e da AJA.

Em outros colégios dos municípios a movimentação acontecia levando aos novos artistas a luta por um teatro/prédio que lhes possibilitasse o desenvolvimento dos seus trabalhos. Surge, então o Teatro Municipal Armando Mello, no Shopping Center de Duque de Caxias (lº teatro e lº Shopping), órgão da Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal. Primeiro administrado pelo poeta, dramaturgo e jornalista Laís Costa Velho que fez um projeto de criação de platéia com espetáculos grátis patrocinado pela própria prefeitura. O projeto durou só l ano, mas deu bons resultados. A Segunda administração foi da Prof. Terezinha Carminatti, da qual fui assessor técnico durante 10 anos, realizando pela primeira vez, cursos de teatro na Baixada (era início dos anos 70) e dando oportunidade a surgimento de novos valores nos mais diversos compartimentos: artes plásticas, música e teatro. Eram constantes as galerias de artes plásticas de onde saíram os que são agora, grandes pintores de renome internacional.

Em nova Iguaçu surge dentro da Academia Iguaçuana de Letras, no centro do município, o Teatro Arcádia . Que com os trabalhos cênicos e administrativos dos artistas Celso Mosciaro (vivo) e Roberto Brito (falecido) deu grande alento a vida teatral daquele município. Lá se realizavam cursos, teatro infantil e, muito dos atores formados no Arcádia, cresceram nas artes e encontraram seus caminhos da educação, na música e na animação cultural. A partir da década de 90 o Teatro Arcádia foi desativado e o Armando Mello comentarei mais tarde.

O restante da década de 60 consolidaria as expectativas de seu início. Após a revolução de 64 as dificuldades aumentaram com a repressão que marcaria o país, depois do AI-5, em 1968. Só que paradoxalmente foi na década posterior que as artes adquiriram maior relevância nas mais diversas áreas tirando, em parte, o estigma negativo da Baixada levando os desinformados, desinteressados ou preconceituosos a reconhecer que Nilópolis, São João, Nova Iguaçu e D. de Caxias eram celeiros de grandes talentos esperando seu grande momento. Os movimentos de base sindical, os diretórios acadêmicos ligados às faculdades e universidades foram marcantes na composição de uma ação resistente que juntava arte e engajamento político.

Uma imprensa atuante e reivindicadora permanecia atenta e jornais que mantiveram esta postura foram "O Fluminense " editado e com sede em Niterói que tinha caderno de reportagens sobre a Baixada, "Hoje " de Nova Iguaçu, "A Folha da Cidade " e "O Municipal "de D. de Caxias. O jornalista Carlos Ramos, falecido, que transitava com sua coluna social e de cultura pelos mais diversos jornais é figura que não pode se esquecer porque foi responsável pelo surgimento de grandes artistas. Sob sua organização foram realizadas diversas galerias de artes plásticas com sucesso sempre, fosse nos clubes ou no hall do teatro Armando Mello. Nestas galerias foram revelados pintores famosos pelo mundo todo. Artistas do porte de Messias Neiva, Marcos Bonfim, Romanelli, Maria do Carmo Fortes, Barboza Leite, Rodolfo Ardlt naquela ocasião mostravam seus primeiros quadros.

Foi também o tempo dos músicos da Baixada influenciados pelos festivais de M.P.B que se promoviam em todo Brasil e que revelou Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento. Estes festivais eram reproduzidos quase, que, mensalmente, durante o ano todo organizados em clubes, faculdades e escolas. Compositores e cantores como Canthidio José, Chiquinho Maciel, Edu Costa, Beto Gaspari, Marcelo Ferreira, Ricardo Barbieri, Loura, Rita Alves, Rodolfo Barros que continuam com seu trabalho musical.

Na efervescência do período os grupos de teatro mantinham um trabalho fecundo, baseado na resistência e num certo engajamento político servindo de trincheira na guerra contra a ditadura vigente. A temática dos espetáculos se voltava sempre a denunciar o protesto embalado por uma representação espontânea, sem técnica, onde importava mais o que dizer (mesmo que metaforicamente) do que como dizê-lo. O grupo TINI de Nova Iguaçu foi o exemplo de um teatro participativo ao nível de idéias e interativo no contato com o público em favelas, clubes, escolas e associações de moradores. Capitaneado por Celso Mosciaro e pelo saudoso grande ator diretor Marco Mirelli, o grupo se uniu a outro grupo de São Paulo, o "Olho Vivo" de São Paulo dirigido pelo dramaturgo César Vieira e realizaram a montagem fluminense "Rei Momo" da autoria do teatrologo mencionado. De qualquer maneira independente da censura e da vigília alguns órgãos oficiais driblavam a repressão e o autoritarismo criando oportunidades de trabalho para diversas companhias de teatro na Baixada. A Secretaria Estadual de Educação, sob o comando do dramaturgo e diretor carioca, Paulo Afonso Grisolli que criou "O Pacote Cultural" que consistia em levar arte e diversão ao povo, principalmente, os menos favorecidos culturalmente e financeiramente. O projeto dava toda infra-estrutura necessária e pagava cachê por apresentações ou números de apresentações.

Em Nilópolis pouca coisa acontecia, provavelmente, pela ação censora dos interventores indicados pelo Governo Federal que substituíam os prefeitos já que as eleições estavam suspensas até o fim do AI-5. São João de Meriti já ensaiava alguns movimentos de teatro e música que teria seu ápice na década de 80 com o aumento das opções culturais e a construção do Teatro do Sesc.

O teatro em D. de Caxias, permanecia forte e vigoroso com o grupo Arte e Voz, dirigido por Francisco Fernandes, e, este que vos fala , com as montagens anuais de celebração do fim de cada etapa dos 11 cursos de Informação Teatral, ministrados no Teatro Municipal Armando Mello. Neste teatro foi onde se reuniram atores experientes, atores anônimos recém-formados da Escola de Teatro Martins Penna, do Rio de Janeiro, atores iniciantes, criando o grupo T.A.L que montou o texto de David de Medeiros, "Sacos e Canudos", pois foi este espetáculo que em maio de 1978, a voz do locutor Cid Moreira anunciava no Jornal Nacional da TV Globo como vencedor na categoria especial do Prêmio Moliere / 77 instituído pela companhia aérea AIR-FRANCE, homenageando os melhores profissionais de teatro da temporada anterior à premiação. Junto com o grupo ganharam : Fernanda Montenegro, melhor atriz; José Wilker, melhor ator e João Neves, dramaturgo e diretor. Era D. de Caxias e por que não , a Baixada citada no Jornal Nacional sem mencionar, miséria , violência ou pobreza. No elenco do grupo T.A.L : José carlos de Souza, Jane Thomé, Eve Penha, Ivan Pereira, Sidney Alves, Rosana Muniz, Paulo Renato, Oswaldo José Marcilio Barroco e Ediélio Mendonça. O grupo balançou as estruturas do teatro tradicional carioca com sua irreverência, alegria e anti estrelismo. E na dúvida entre amador ou profissional, os críticos convencidos do talento nato daqueles principiantes, classificou-os de grupo não-empresarial. Alcunha que 2 anos depois vai acompanhar a menção a novos grupos que irão surgir.

E foi com o grupo T.A.L e o espetáculo "Sacos e Canudos" que em setembro de 1978 é inaugurado o teatro Sesc de São João de Meriti. Em seguida, temporada de 2 meses somando quase 12 mil espectadores, muitos deles que nunca tinham assistido a uma peça ou entrado em um teatro.Com sua boa localização ( entre S. João e Pavuna ) e grande aparato técnico e administrativo, o teatro do Sesc preencheria os sonhos dos artistas em geral, já que os teatros em D. de Caxias ( Armando Mello, Procópio Ferreira - na Câmara Municipal ) eram úteis, mas fornecia pouco espaço e má localização como o primeiro, ou pouca condição técnica como o segundo.

Com este "boom" dos anos 70 que merecia um estudo à parte, entra-se na década de 80, com cultura na Baixada sendo mais operante. É o tempo da ascensão, que permanece até os dias de hoje, não obstante o impasse natural que a sociedade, como um todo sofre a cada fim de século. A Zona Sul passa a descobrir a Baixada. Primeiro com a profissionalização das escolas de samba, tendo por parâmetro a subida vertiginosa da Beija Flor de Nilópolis, através do trabalho de sua comunidade e a presença do cenógrafo e carnavalesco Joaõzinho Trinta. Forma-se, então, o trio das grandes da Baixada: a já citada, Unidos da Ponte em S. J. Meriti; e Grande Rio em D. de Caxias. Os cultos afro-brasileiros passam a ser valorizados e era comum descobrir a cada fim de semana caravanas de espectadores, adeptos ou curiosos comparecendo às festividades dos terreiros de Umbanda e Candomblé. Livros de estudiosos sobre o assunto são lançados. Culminando agora, em 1998, com o lançamento do livro da Mãe Beata de Iemanja, de São João de Meriti, sobre a religião Iorubá no Central Park de Nova Iorque.

A culinária e as feiras livres vão sendo descobertas pelos cariocas e moradores da Baixada. "O Feijão do Januário", no bairro Centenário, em D. de Caxias e a feira dominical são comentados e recomendados em toda imprensa estendendo-se esta divulgação por todo Brasil.

Os projetos culturais são desenvolvidos e grupos de teatro são formados, permanentemente nos 4 municípios e a preocupação de arregimentar novas platéias une teatro/escola que seria o grande sustentáculo dos artistas que emergiam em grande profusão.

O patrimônio histórico passa a ser pesquisado e estudado com tombamento de igrejas, prédios antigos e fazendas do tempo do Brasil colonial e do Brasil Império.

Nos bairros os grupos musicais florescem, alguns para amadurecerem como profissionais de qualidade motivados pelo samba e pelo movimento, de grande importância, quando ordeiro e disciplinado, do reggae e do funk.

Outro acréscimo ao desenvolvimento de uma cultura mais moderna foi a criação dos CIEPS em horário integral, em 1985. Um espaço alternativo que através dos professores e animadores culturais desenvolveria um trabalho voltado para o povo, integrando educação e comunidade.

Em 1990 é inaugurado a 1ª secretaria de Cultura da Baixada, em D. de Caxias, atendendo a reivindicação antiga de desmembramento da junção educação e cultura. A Secretaria tem em seu organograma, o teatro Armando Mello, a Biblioteca Gastão Reis, o Museu Histórico e a Oficina de Arte Plástica Barboza Leite. Em S. João, através de sua prefeitura, cria-se o Centro Cultural Meritiense. Em Nilópolis a iniciativa privada produz arte voltada para outras áreas fora do samba. Em Nova Iguaçu, núcleos de Cultura se espalham, movimentando, conscientizando e dando oportunidade artística a todos.

Também convém assinalar e destacar a contribuição do Teatro Procópio Ferreira da Câmara Municipal de D. de Caxias, que desde 1983 tornou-se um aglutinador de diversas tendências artísticas da Baixada e adjacências.

E por último as instituições como SENAI e SESI que por intermédio dos seus espaços cênicos, cursos, quadras de esporte, piscinas e promoções culturais se incorporaram aos que tentam e resistem para manter viva a cultura na Baixada.

Perspectiva para o próximo século???


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A Baixada e a Produção Cultural
Gênesis Torres
Professor, Pesquisador, Presidente do IPAHB e
Membro da Academia de Letras de Meriti.

Com seus 3.5 milhões de habitantes a Baixada Fluminense, hoje dividida entre os municípios de Japeri, Paracambi, Queimados, Nova Iguaçu, Mesquita, Nilópolis, Belford Roxo, São João de Meriti, Duque de Caxias, Magé e Guapemirim, tem um processo de ocupação bastante diferenciado das demais regiões metropolitanas das capitais dos Estados Brasileiros. O Rio de Janeiro, por ter sido capital desde a colônia sempre somou um grande número e cada vez mais crescente de equipamentos culturais, como museus, salas de teatro, de música, centros esportivos, centros de convenções e demais Órgãos e Instituições que dedicam-se as atividades ligadas a cultura.

A periferia sempre carente destes equipamentos e atividades culturais, ficou relegada ao esquecimento e a exclusão das decisões, formando gerações alienadas quanto ao avanço do pensamento moderno, e as mudanças de caráter cultural que processava no mundo contemporâneo. A televisão e o rádio foram e têm sido os veículos condutores de alguma forma dos processos de mudança, o que permitiu atitudes comportamentais em relação ao mundo intelectual.
Chegamos ao início do século XXI na Baixada com uma defasagem de equipamentos culturais que só pode ser explicado a luz dos processos de discriminação e da exclusão social.

A Baixada conta hoje com salas de teatro nos municípios de São João de Meriti (SESC), Queimados (Prefeitura), Duque de Caxias (do SESI e Câmara Municipal) Nova Iguaçu (Prefeitura), Nilópolis (Prefeitura), Nova Iguaçu (SESC). Com exceção das salas do SESC e da Prefeitura de Queimados as demais são bastante tímidas e não estão preparadas para grandes espetáculos.

Centros Culturais ou espaços para atividades culturais diversas, aparecem nos municípios de São João de Meriti, Nilópolis, N. Iguaçu, Belford Roxo e Duque de Caxias, o que permitem a estes municípios, dependendo dos projetos desenvolvidos em cada Secretaria de Cultura, ocupá-los com atividades culturais.

Com relação às artes plásticas somente o SESC de Nova Iguaçu tem um espaço dedicado permanentemente à exposição. O artista plástico na Baixada expõe suas obras em salões adaptados, em restaurantes e churrascarias, nos Centros Culturais, que não possuem iluminação suficiente, segurança para as obras e tudo o necessário para a valorização da obra de arte.

A preservação da memória através de centros de referência ou museu, só existe a iniciativa do IPAHB em São João de Meriti, que ainda é bastante pequeno e não possui um acervo significativo.

Quanto a música somente os municípios de São João de Meriti e Nilópolis possuem Escola mantida pelo poder público, com bastante carência e falta de espaço adequado para o aprendizado na diversidade dos instrumentos.

A produção artesanal é significativa, no entanto, não há iniciativas públicas ou privadas, com cooperativas ou galpões do artesão, organização e venda da produção. Não há um artesanato típico e o que se produz é para consumo imediato que é levado para as feiras e são vendidos na rua junto do mercado livre e atravessado pelos camelôs.

A produção editorial entre poetas, escritores e intelectuais diversos é muito pequena frente ao universo populacional. Não há dados precisos, podemos afirmar sem muita margem de erro que não se produz por ano mais do que 06 títulos de obra na Baixada. Acreditamos até, que a produção existe, porém, pela falta de recursos estas obras não são publicadas.

As instituições culturais que estão ligadas ou não ao poder público que merecem destaque estão o IPAHB (trabalha as questões de memória e patrimônio histórico), a Casa da Cultura (trabalha com as artes em geral), o INCAPRA (trabalha com comunidade Afro), a A.M.C (trabalha Compositores da Baixada), todos de SJMeriti. Em Nilópolis encontramos o Alma Barroca (trabalha com as artes em geral). Em Nova Iguaçu destacamos o Onda Verde (trabalha com ecologia e cultura em geral). Em Queimados o Projeto de Jovens e Adolescentes (Cultura e Educação). Em Duque de Caxias a Associação dos Artistas Plásticos, Associação das Folias de Reis, O Cine Clube Mate com Angu e o Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque de Caxias.

Constata-se que são muitas instituições que anonimamente vem ocupando os espaços que deveriam ser ocupados pelo Poder Público. Na realidade iniciativas particulares ou de grupos produzem ações culturais de qualidade, no vácuo deixado pelos agentes públicos.

As questões culturais da Baixada Fluminense sofrem dos mesmos males que atormentam a cultura brasileira, entre os muitos males quero destacar os que eu considero os mais pertinentes. Primeiramente os orçamentos municipais para a cultura são medíocres e giram em torno de 0.5 a 0.7 %, consumidos basicamente com folha de pessoal. Não há dinheiro para investimentos físicos e projetos culturais.

Outra questão de grande relevância é o gerenciamento da cultura. Há municípios que o gestor é fruto de acordos políticos e a pasta é entregue a cidadãos sem nenhuma experiência e conhecimento do universo cultural. Soma-se ainda, a falta de formação intelectual e acadêmica, credenciamentos necessários para uma boa gestão, isto tudo vem dificultando o desenvolvimento de projetos. Esses fatores geram a falta de continuidade, provocando a obstrução das relações interpessoais com os agentes culturais.

Desta forma podemos observar que há municípios que avançam quando se tem como gestor indivíduos com formação e compreensão das áreas culturais e retrocede quando a escolha é mal feita e quem perde é o povo, não só do município mas a Baixada como um todo.

Um fator que também incomoda no desenvolvimento das atividades culturais é a improvisação. Não conheço hoje dentro do universo cultural da Baixada, municípios que têm projetos de médio e longo prazo. As ações são invarialvemente voltadas para o imediatismo e para política de eventos, ou quando muito, projetos pontuais. Um plano de Cultura importaria a organização dentro do município de infra-estrutura física, material e humana capaz de suportar a demanda cultural de qualidade, operacionalidade e resultado transformador.



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A Cultura do Poder
Gênesis Torres
Professor, Pesquisador, Presidente do IPAHB e Membro da Academia de Letras de Meriti.

Dentro deste universo que constitui a Baixada Fluminense, tenho refletido sobre o papel da cultura do Poder Público nas relações entre governo e população e esta com o poder. As perspectivas nem sempre são boas e, às vezes, chego a conclusões desalentadoras. No entanto, consigo enxergar nestas estradas sinuosas algumas linhas retas que podem nos conduzir a dias melhores.

Primeiramente, é necessário definir que esta região hoje é composta dos municípios de Magé, Guapimirim, Duque de Caxias, São João de Meriti, Nilópolis, Belford Roxo, Mesquita, Nova Iguaçu, Queimados, Japeri e Paracambi, em que somados possuem uma população adulta em torno de três milhões de habitantes, em um espaço aproximado de 4 mil km2.

Sua história é um apêndice da Cidade do Rio de Janeiro e esta cresceu e tornou capital política, econômica, social, cultural e turística, graças à existência de uma grande baía e no seu entorno a existência de uma grande malha hidroviária importante no seu passado. A seguir, veio a ferrovia e ultimamente é cortada pela duas grandes rodovias nacionais como a Presidente Dutra e a Washington Luiz. Mais recentemente, foi completada nos seus acessos pela linha Vermelha e pela Via Light. Está em curso o projeto da rodovia que ligará pela BR 109, o Porto de Sepetiba, em Itaguaí, a Petrópolis, a Magé, a Teresópolis e ao restante do País.

Está ainda em fase de implantação a instalação do primeiro Porto Seco do Estado do Rio, nas margens da Presidente Dutra entre Belford Roxo e Mesquita, onde, com autorização da Receita Federal, vai funcionar uma espécie de "Zona Franca" como funciona na cidade de Manaus.

A Baixada vem recebendo grandes investimentos de infra-estrutura de serviços para atender a grande demanda populacional nos setores de alimento, vestuário e de suporte na formação de mão de obra especializada nas áreas da educação, medicina, odontologia, ciências econômicas, jurídicas, ciências sociais, entre outras.

Se os dias são difíceis para o setor privado, com baixas vendas, logo poucos impostos a pagar, o que diremos do setor público, com permanentes cortes em suas receitas devido ao arrocho do Governo Federal, principalmente em municípios da Baixada que necessitam permanentemente de crescimento dos investimentos públicos, dada a demanda da população que cresce em progressão geométrica enquanto os investimentos públicos caminham em uma proporção aritmética, confirmando-se aqui as teorias Malthusianas.

Além desses fatores aqui elencados, notabiliza-se o enorme esforço que os governos de alguns municípios vêm fazendo para atrair investimentos para setor público, tentando assim, conseguir acompanhar o crescimento do setor privado, dotando os seus municípios de um mínimo de organização do espaço com melhores vias de comunicação. Muitas das vezes são municípios que a sua população entendeu o recado do seu governante e numa verdadeira parceria de mutirão está vencendo as dificuldades.

É preciso neste momento a união de esforços, em principal dos homens de bem, e queremos crer que estarão nesse bojo os que pretendem ser homens públicos, aqueles que pensam em nossa cidade e querem para ela o permanente bem estar, não é hora mais de divisão. Estamos dando passos importantes e qualquer atitude política mal pensada a história com certeza não perdoará.

Destacamos, neste aspecto, o município de São João de Meriti com o Prefeito Antonio de Carvalho, que num curto espaço de tempo, tendo mobilizado em finais de semana cerca de 6 mil pessoas em sistema de mutirão, concretou mais de 700 ruas, conseguindo baratear o custo do metro linear de concretagem, material que a bem da verdade possui maior duração do que o asfalto, de fácil e melhor conservação, podendo ser feita pelo próprio morador.

Muito se tem escrito sobre as tendências do século XXI no que tange a política de resultados, do conhecimento e das competências individuais. No entanto, é certo que estamos entrando numa era que não há mais espaço para improvisações, incompetência, amadorismo e experimentações. O mundo exige profissionalismo, capacitação permanente, respeito com os gastos públicos, o estabelecimento prioridades e de uma política de planejamento constante. Não mais se tomam decisões isoladas, há de se ouvir permanentemente a comunidade e com ela caminhar na busca de soluções.

Quando falamos de comunidade participando, estamos aqui nos referindo aos diversos segmentos como os empresários, os religiosos, o povo no seu local de moradia, os profissionais dos diversos setores (como motoristas, militares, médicos, professores, advogados, os ambulantes, os trabalhadores em geral do comércio e da indústria etc.). Como estabelecer os canais de comunicação com esses segmentos é que passa a ser o grande desafio do governante. Enfim, este é o peso da democracia participativa. Neste sentido, São João de Meriti está dando passos importantes e sabemos que a liderança do Prefeito, com seu espírito sempre aberto em ouvir a comunidade, tem sido a mola propulsora neste processo.

No entanto, o Prefeito não pode estar só neste processo. Seus auxiliares do primeiro ao último escalão, os funcionários efetivos do quadro da Administração, nas suas diversas secretarias como Obras, Fazenda, Administração, Saúde, Educação, Meio-ambiente, Trabalho e Ação Social, Indústria e Comércio, Cultura, Esporte e Lazer, Governo e Procuradoria têm que falar uma só língua - não a da subserviência, mas a da competência, da responsabilidade, do respeito e zelo com a coisa pública, da dedicação, da boa vontade e urbanidade com o contribuinte e dos princípios da administração pública como economicidade, legalidade, moralidade e impessoalidade. Assim agindo e em consonância com o chefe do executivo, temos a garantia que a Administração Pública cumprirá o seu papel para com o contribuinte: o de devolver, em forma de obras, o pagamento de seus impostos.

Se assim não for, o funcionário não cumprindo o seu papel, os comissionados indiferentes aos atos administrativos e somente o Prefeito procurando resolver os problemas da cidade, com certeza continuaremos no retrocesso e reverso da história. Com certeza, a Baixada economicamente crescerá e a administração pública, mais uma vez, ficará devendo sua participação neste importante momento de mudanças.


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A Mortalidade de uma Academia de Imortais
Gênesis Torres
Professor, Pesquisador, Presidente do IPAHB e Membro da Academia de Letras de Meriti.


Naquela longínqua noite de 26 de Agosto de 1978, reuniram-se no átrio da Câmara Municipal desta municipalidade, localizada na Av. Nossa Senhora das Graças, centro deste Município, um grupo de homens e mulheres com objetivos altaneiros e revestidos dos mais nobres princípios do ser humano, o qual seja, o de perpetuar a memória e a obra daqueles cidadãos e cidadãs que construíram o saber e a cultura neste pedaço de chão, denominado São João de Meriti. Nascia naquela noite a Academia de Letras e Artes.

Inicialmente lá estavam presentes Antonio de Carvalho, Ney Garcia da Costa e Maria das Graças Gomes Neves. A este pequeno grupo, juntaram-se outros como Josias Moreira Nunes, Alberto Jeremias, Abílio Teixeira, Emmanuel Soares, Pedro Loureiro, Antonio Hélio, Artur Fialho, Wagner Cortaz e Delma Dias. Depois vieram outros, como Maria Lúcia D'Avila, Moysés Henrique, Edson Vinhas, Carlos Ramos, Antonio Rodrigues, Luiz Ivani, Ivo Ramos e Moacyr de Carvalho.

Durante sete anos, até 1985, a ALAM teve vida ativa, porém, com a enfermidade e morte do seu último presidente, ainda no exercício, criou-se um vácuo de 14 anos, vindo reabrir em 1999.

Passamos por uma fase de reorganização e de abertura para novos membros. Hoje, a ALAM tem o compromisso e o dever de cumprir o seu papel como instituição a serviço da cultura.

Os noviços rendem-lhe suas eternas homenagens, e podem ter a certeza que vossos ideais, enquanto existirem homens e mulheres produzindo cultura nesta terra, a chama dos princípios e objetivos da Academia estarão sempre vivos, a memória dos sábios jamais serão esquecidas, o mundo avançará com a sabedoria e não com a truculência. A história é testemunha. Nos retrocessos também aprendemos e tiramos lições.

Quero refletir sobre algumas questões existenciais, sobre a "Mortalidade de uma Academia de Imortais".

Penso eu...
Minha individualidade é única. Não fui e não serei outro. Os poetas românticos falam de uma outra metade, o complemento do ser que se realiza no amor, nas paixões...

Homens de todas as classes sociais, com objetivos diversos têm se reunido para buscarem de alguma forma caminhos que os levem a eternizarem-se. Alguns religiosos buscam pela fé o encontro com o seu Deus numa morada celestial. Outros crêem na reencarnação, e assim sendo, voltariam a este mundo e viveriam várias vidas, num processo de aperfeiçoamento material e espiritual. Outros criaram rituais e meios de embalsamarem o corpo acreditando que um dia voltariam para buscá-lo como o deixou. D. Pedro I (de Portugal) era casado com D. Inês de Castro. Depois de viverem um grande amor, ao morrerem, foram enterrados, conforme vontade, de frente um para o outro, na crença de que ao serem ressuscitados seus corpos levantariam, ambos, de frente um para o outro.

No fundo, o homem gosta desta vida. É narcisista e tem medo da morte. Suas crenças, quaisquer que sejam, seguindo os mandamentos da fé, prometem-lhe uma vida celestial e ao lado de seu Deus.

Na realidade, o homem não escolheu o dia, mês, ano e nem sequer foi consultado se queria nascer ou não. Porém, uma vez colocado neste mundo, a sua sobrevivência, boa ou ruim, é de personalíssima responsabilidade. Seus atos serão sempre policiados e é sempre responsável por tudo o que acontece em sociedade, direta ou indiretamente.

Reflexões existenciais à parte. O que eu quero falar é de outra coisa, a propósito - dos imortais acadêmicos ...

Quando os gregos se reuniam para estudar o mundo, buscar as razões do ser, do não ser, do vir a ser. Como bons amigos do saber - estavam fundando as bases da filosofia ocidental. Ao local de suas reuniões a Academia.

Sem dúvida, o maior legado da Civilização Grega foi o de ter chegado até nós esta incansável busca para desvendar os mistérios que nos cercam e que atraem homens de todas as raças, qual sejam, os mistérios do infinito e a eterna busca da verdade, das coisas materiais e imateriais. Como dizia Plutarco em 351 a.C. "Nem Deus pode dar nem o homem receber nada mais excelente que a verdade".

Esta constante busca da verdade levou ao conhecimento da Física, Matemática, Ontologia, Escatologia, Antropologia, Gnosiologia, Teologia, Epistemologia, da Ética e da Política. Questões de debates sempre abertas ao mundo em todas as épocas e que nascem e morrem com o próprio homem.

Como chegou até nós toda a sabedoria grega?

Após uma longa discussão e calorosos debates, os conhecimentos gregos eram depurados no interior das academias, uma espécie de "purgatório" das idéias, onde a busca da verdade prevalecia sobre a mentira e o bem contra o mal, a virtudes sobre os vícios. As várias escolas gregas fizeram surgir as várias academias. Houve a primeira, a segunda, a terceira e a quarta. Passando por Sócrates, Platão, Aristóteles. Foram séculos de puro êxtase no mundo das idéias.

O objetivismo e o pragmatismo romano universalizaram o pensamento grego, mas não foram capazes de dar-lhe seqüência, de promover a sua aplicabilidade subjetiva. Venceram os romanos pelas armas e aproveitaram-se de seus conhecimentos físicos. Não foram éticos e caíram na desgraça moral, incapazes de suportar o peso da responsabilidade do Império, sucumbiram sobre suas próprias pernas.

Os mil anos da Idade Média foram terríveis para a Civilização Ocidental. Salvaram Santo Agostinho, de 354 d.C., e Santo Tomás de Aquino, de 1226 d.C. Ambos voltam ao cenário com as questões das origens das coisas. Santo Agostinho discordando dos filósofos pré-socráticos quanto à origem do universo, fundamentados na água, no ar e no fogo. Deus criou todas as coisas a partir do nada, sendo criador de todas as coisas, Deus não foi criado por nada. Santo Tomás de Aquino tenta harmonizar a fé com a razão, e tenta explicar a fé cristã à luz da racionalidade Aristotélica, fundando a Escola Tomista.

Na Idade Moderna, a Filosofia e a Academia buscam o rompimento com o pensamento teocêntrico e elaboram a discussão do antropocentrismo, o que leva ao desenvolvimento das ciências em geral. Nascem os grandes enunciados da Física Moderna, da Astronomia e da Matemática. Revolucionam os padrões da estética. O homem mergulha-se na dúvida metódica e descobre os caminhos da ciência que o levará a desvendar os mistérios do universo. Nasce uma ciência engajada na promoção do homem e a serviço dele.

O mundo contemporâneo é marcado por uma centena de pensamentos filosóficos, entre muitos e diversas correntes vamos descobrir a questão da existência, sendo uma grande preocupação dos homens no mundo atual, senão vejamos alguns desses pensadores:
- Soren Aabye Kierkegaard: "existir é engajar-se perfeitamente nas categorias da nossa existência e vencer os obstáculos opacos da experiência vivida, como a angústia, o absurdo, o desespero e o paradoxo. Pois, existir é apaixonar-se".
- Friedrich Nietzshe: "o mundo passa e voltará a passar indefinidamente pelas mesmas fases e cada homem voltará a ser o mesmo em novas existências...".
- Henry Bérgson: "não é a inteligência que chega a compreender a vida, mas sim a intuição do ser humano. Somente com a intuição, o homem se transporta ao interior do objeto, para compreender o que tem de único e significativo. A intuição é, portanto, a única realidade que o homem possui para aclarar o seu espírito".
- Martin Heidegger: "existir é encontrar-se no mundo. Pois o homem, ser finito, passa a residir na sua própria essência. Mas, pelas próprias limitações de encontrar-se no mundo e no tempo, o homem experimenta a impossibilidade de realizar-se plenamente, a não ser na morte. Devemos ser autênticos e compreender nossa existência, seremos levados ao nada. E o nada leva a angústia".
- Edmund Husserl: propõe criar a ciência da Fenomenologia. "orienta sua teoria para uma volta à intuição originária das coisas e das idéias, esta é a percepção real que temos de um objeto, pois o pensamento só faz visar o objeto com uma intenção vazia".
- Jean Paul Sartre: "a existência precede a essência, isto é, a herança biológica do indivíduo não determina o seu destino, que é construído por suas próprias decisões; não existe uma natureza humana, mas indivíduos que constroem seus projetos existenciais, dentro de seu próprio mundo circundante e dentro da sua própria liberdade de ação".

Diante destas questões postas, não posso, em nome da cultura, aceitar que a Academia seja um lugar de encontro de homens sem compromissos com a sociedade, sem engajamento no processo de transformação, de promoção do bem estar e do crescimento das potencialidades do ser humano, transformando cada cidadão num ser consciente do seu papel na sociedade, de sua co-responsabilidade pela justiça e de sua luta permanente na criação de espaços capazes de avançar na busca do equilíbrio afetivo e material.

Vivemos numa Cidade com maior concentração demográfica do Brasil. Campeia entre nós, a miséria, o desemprego, o analfabetismo, insegurança e a violência nas suas diversas formas. Cada vez mais aumenta o número daqueles que buscam os divãs dos psicanalistas. Para as populações mais carentes, as grandes sessões de catarse dos cultos religiosos funcionam como efeito salutar, provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e ou traumatizante, até então reprimida, normalmente encarada como obra do diabo e ou do satanás.

Na realidade, a grande massa da população vive alijada do processo de mudanças que o mundo cada vez mais exige, qual seja, o da constante reciclagem dos processos de obtenção do conhecimento aplicados às questões profissionais imediatas. A Academia neste sentido comprometida, estaria prestando o serviço que a colocaria dentro dos objetivos primitivos de sua razão maior. Servir com seus conhecimentos ao progresso material e imaterial da comunidade na qual está inserida.

Neste sentido, a Academia de Letras e Artes de São João de Meriti, propõe ser um instrumento de discussão permanente das questões objetivas e subjetivas que afligem nossa existência e a nossa comunidade.


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O poder e a cultura
Gênesis Torres
Professor, Pesquisador, Presidente do IPAHB e Membro da Academia de Letras de Meriti.


Conceituamos cultura como um conjunto complexo de atividades humanas que incluem conhecimentos, artes, letras, costumes, moral, crenças, enfim, todas as atividades humanas inseridas no ambiente em que habita o homem. Como conteúdo é também o conjunto das coisas materiais e espirituais de um povo. Nesta linha de pensamento, quero refletir com você sobre o papel do Poder Público no desenvolvimento da Cultura na Baixada Fluminense. Com certeza, não é tarefa fácil, faltam informações, pois, os produtores culturais, ao nível público, nunca produziram um saber que pudesse servir para análise crítica quanto aos avanços e retrocessos do setor.

A inserção do setor público nas atividades culturais tem sido bastante tímida no decorrer deste século que ora termina. As produções culturais de iniciativa privada são de maior envergadura, porém, efêmeras e com fortes matizes mercantilistas, afastando assim os menos favorecidos. As casas de espetáculos e shows estão acopladas às casas de gastronomia ou nas Escolas de Samba. Assim, à grande massa do povo tem sido negado o direito de participação às produções culturais. Há governos na Baixada que chegam considerar a produção cultural como supérfluo e de nenhuma importância para sua comunidade. Talvez aí se explicam as razões de termos chegado ao final deste século sem um espaço físico público capaz de abrigar eventos que possam atrair um contigente razoável de pessoas e que nesse espaço tenha toda a infra-estrutura necessária. Não temos um teatro ou casa de espetáculo com programações regulares.

Dos onze municípios que compõem a Baixada Fluminense, somente os municípios de Meriti, Duque de Caxias, Nilópolis e Nova Iguaçu conseguiram alguns avanços nas questões culturais. Primeiramente, trataram de desmembrar a Cultura da Educação, transformando-a em Secretaria. Nesses municípios, o Poder Público procurou marcar presença, como o caso de Duque de Caxias, que na década de 1960, criou os Teatros Armando Melo e o Procópio Ferreira, somando-se mais recentemente com o do Sesi. Foram iniciativas de grande mérito que possibilitaram criar grupos teatrais que se projetaram no cenário nacional, como o de Ediélio Mendonça, em D.Caxias, que ganhou prêmio Molière em 77, com a peça “Sacos e Canudos”.

Em Meriti, o Sesc ao construir o seu espaço, em terreno doado pela municipalidade no início da década de 70, procurou dotá-lo de um teatro, e tal casa de espetáculo tem dado grande contribuição aos artistas locais. Mais recentemente, em 1992, o governo Municipal construiu o Centro Cultural, que no atual governo tem servido para atender ao teatro amador.

Mesmo avanço teve Nilópolis, com seu Centro Cultural e sua escola de Música, iniciativas essas que forçosamente acabaram avançando para o desmembramento, em 1999, da Secretaria de Educação, criando-se a Secretaria de Cultura.

Em Nova Iguaçu, a situação é mais complexa. Existem vários espaços culturais como Sesc, Senai e diversos clubes e colégios, com salas para espetáculos teatrais. No entanto, a Secretaria de Cultura funciona em espaços inadequados e sem projetos culturais de longo prazo ou mesmo uma política séria nesta área.

Em São João de Meriti, tem sido feito um grande esforço para superar o déficit cultural. O primeiro passo foi em 1993, quando pela Lei 746 de 14 de Janeiro, criou-se a Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, desmembrando-se da Secretaria de Educação, pois, até então, era apenas um Departamento e sem recursos.

Como a Secretaria abrange a Cultura, o Esporte e o Lazer, ocorreu um fato muito comum na Administração Pública. Foi colocado no cargo um aliado político que, por sua formação profissional, dedicou a Secretaria recém-criada ao Esporte e ao Lazer, o que estrangulou com a Cultura, pois não tinha credenciais para motivar ações culturais transformadoras. O que se produziu de cultura entre os anos de 1993 a 1996 foi muito pouco, já que contava apenas com um Centro Cultural. Seu atendimento à comunidade reduziu-se à Biblioteca e a alguns projetos de oficinas nas artes plásticas e artesanato.

No entanto, a grande revolução cultural e de lazer vai se dar a partir de 1º de janeiro de 1997, quanto então assume a Prefeitura o Dr. Antônio de Carvalho. Este homem, durante toda a sua vida esteve ligado à comunidade e suas manifestações culturais, atuando efetivamente em Clubes de Serviço, Centro de Ação Comunitária e Organização de Assistência Comunitária. Teve ainda, a clarividência de colocar no comando da Secretaria o Sr. Leonardo de Carvalho, um jovem com muitos sonhos e projetos, mas, acima de tudo, com muita criatividade, sabendo-se que nem sempre os recursos são suficientes e que se tem de valer da criatividade para fazer tudo com tão pouco. Soube formar uma equipe arrojada, com pessoas experientes no trato das questões culturais e esportivas.

Para enfrentar os desafios da falta de recursos, buscou-se parcerias do setor privado, do setor público e do terceiro setor, a das ONGs, sem desviar a atenção do maior produtor de cultura: O POVO.

Cientes desde o primeiro momento de que governar uma cidade como São João de Meriti era enfrentar permanentemente desafios, procurou-se criar uma política de cultura. Sabíamos que nossa cidade não tem tradições, possuindo ainda uma população frágil na sua estrutura organizacional, fatos esses complicadores, porém transponíveis a partir da credibilidade e confiabilidade nas ações governamentais. Max Weber, ao dissertar sobre autoridade e legitimidade, nos diz que o líder carismático, em certo sentido, é sempre revolucionário, na medida em que se coloca em oposição consciente a algum aspecto estabelecido na sociedade em que atua. Encarar estas estruturas viciadas foi o grande desafio.

Nestes três anos e meio de governo foram dados importantes passos. Vejamos alguns que se tornaram significativos:
- Com o incentivo do prefeito, reabriu-se a Academia de Letras e Artes de São João de Meriti, paralisada há quatorze anos, introduzindo-se novos membros e reanimando a produção cultural;
- Reformou-se totalmente o Centro Cultural, dotando-o de melhores acomodações;
- Ampliou-se a Banda de Música e criou-se a Oficina Permanente de Música;
- Ocorreu o lançamento das oficinas de artes, teatro, música, pintura, artesanato, cavaquinho, violino, teclado, coral, sapateado, dança de salão etc., com mais de 800 alunos;
- Criou-se a Oficina Permanente de Circo.
- Houve a criação do Grupo Esperança da Terceira Idade Meritiense, com mais de dois mil idosos cadastrados que podem contar com assistência de saúde e atividades de teatro, dança, brincadeiras e excursões permanentemente;
- Iniciou-se a criação do Projeto Bom Dia Meriti, com uma média de quinhentas pessoas todos os dias na Praça dos Três Poderes fazendo ginástica pela manhã;
- Houve a criação da Comissão de Resgate da História e que hoje se tornou um Instituto de Pesquisas, com uma biblioteca exclusiva desse conhecimento;
- Incentivou-se e ajudou-se a criar a Associação dos Produtores Culturais e Esportivos de São João de Meriti;
- Criou-se o Projeto Vitrine de Talentos, com o objetivo de apoiar as iniciativas de produtores culturais autônomos.

Foram realizados mais de trinta mega shows, com artistas de MPB e um Concerto com Orquestra Sinfônica Brasileira. Aconteceram cerca de quinze exposições de artes plásticas. O Centro Cultural é hoje um espaço vivo da cultura meritiense. Deu-se organização e tratou-se com respeito o desfile cívico, fazendo desta data um espetáculo de civismo para os estudantes e comunidade.

Enfim, falar da obra da cultura em Meriti hoje é por antecipação sonhar e acordar nos braços de Orfeu, deliciando-se com os encantos de um novo tempo.

O esporte merece comentários em um outro momento, a matéria é por demais extensa, merece ser tratada em separado.


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