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Sexta-Feira, 21 de Novembro de 2008.

São João de Meriti


Clique aqui e veja um pouco das belezas naturais da Baixada, em fotos de J. Inácio Pacente.

 

Baixada Ecológica
Gênesis Tôrres
Professor de História, pesquisador e membro do IPAHB

Neste início de novo século abro os jornais e já não mais me surpreendo com infinitas notícias dando conta da destruição ecológica desta região que foi, durante quatro séculos, uma das mais encantadoras regiões do País. Vide para tanto, os relatos dos viajantes e pintores que por aqui passaram durante os três primeiros séculos da colonização. Recordemos de alguns deles:
José de Anchieta, em 1585, afirmava que esta terra "é a mais airosa e amena baía que há em todo o Brasil". Em 1663, o Padre Simão de Vasconcelos no mesmo êxtase visual, nos diz: "consta de uma baía e de um recôncavo grandioso, na forma que logo diremos e tem por nome Rio de Janeiro". Também Bougainville, escrevendo em Paris sobre sua viagem ao Brasil em 1766: "a vista desta baía dará sempre o mais vivo prazer aos viajantes (...) Nada é mais rico que o cenário destas paisagens que se oferecem por toda parte". Parny também em 1773 não se conteve e, numa rara imaginação, solta os sentimentos naturalistas nesta pérola sobre a baía da Guanabara - "A entrada desta baía apresenta o mais imponente e mais agradável espetáculo (...). Esta terra é um paraíso terrestre".

A natureza é maior que a imaginação humana, ela supera a razão. Não há em nossos frágeis organismos sentidos capazes de captar olfatos, sons, tatos, visão ou mesmo paladares contidos na excentricidade deste micro-universo. John Luccok viajando por estas terras em 1808, solta seu canto e nos diz: "Mas é em vão que se tenta descrever; não pode a pena limitar o lápis, nem o lápis a natureza, em cenários tais como esse". Seu contemporâneo Augusto Saint-Hilaire, em 1816, apresenta as mesmas dificuldades de imaginação diante da natureza e afirma "Quem seria capaz de descrever as belezas que apresenta a baía do Rio de Janeiro (...). Essas montanhas majestosas que a bordam e também a vegetação tão rica e variada que orna seu litoral?".

Com alma e sentimentos de mulher, Mary Graham escrevendo em 1824, em Londres, o seu Journal of a Voyage to Brasil nos fala de uma incomparável beleza: "nada do que até hoje vi é comparável em beleza a esta baía. Nápoles, o estuário do Forth, o porto de Bombaim e Tricomali, cada um dos quais eu julgara perfeito em sua beleza, todos devem ceder o lugar a esta baía, que excede a cada qual em suas peculiaridades. Soberbas montanhas, penedos em colunas superpostas, vegetação luxuriante, ilhas claras e floridas, verdes e tudo isto combinado ao casario branco (...) Tudo conjuga para tornar o Rio de Janeiro o mais encantador cenário que a imaginação pode conceber".

Para a pintura, não havia pintores surrealistas. O clima era do puro naturalismo com fortes doses de lirismo e romantismo. Assim se expressa Teodore Bosche, em 1825: "Estas montanhas elevadas contrastam com o céu ameno e azul, o qual à luz do sol tropical, encanta verdadeiramente o homem do Norte (...) Não há pincel capaz de pintar a magnificência desta natureza grandiosa (...). Aquele mundo fantástico que a fantasia oriental criou nos seus contos, parece ter-se tornado aqui uma realidade". João Maurício Rugendas não se conteve ao afirmar que "Talvez não exista no mundo uma região como o Rio de Janeiro, com paisagens e belezas tão variadas, tanto do ponto de vista da forma grandiosa das montanhas, quanto dos contornos das praias".

Em sua viagem em redor do mundo, De La Salle escreve, em 1836, celebrando com as palavras a sua estadia no paraíso: "todos os viajantes sentem prazer em celebrar a beleza da baía do Rio de Janeiro". O evangélico e vendedor de Bíblias Daniel Kidder, na sua visão religiosa, também em 1836, compara o lugar com o poder e a própria grandeza do criador. Visitando no mesmo ano, Fisquet achava impossível traduzir o efeito que produz esse espetáculo, as emoções eram tantas e maior que admiração, merecendo uma exaltação religiosa.

Ida Pffeifer, em 1846, não se contem diante de um quadro "cujo encantamento não saberia pena descrever (...). Nós vimos desenrolar-se aos nossos olhos um panorama como seguramente o mundo raramente oferece". Cinco anos após esta assertiva, Fletcher na obra O Brasil e os Brasileiros, descreve que "vi marinheiros russos dos mais rudes e ignorantes, um aventureiro australiano imoral, incapaz de qualquer reflexão, juntamente com europeus refinados e cultos, ficarem mudos, estáticos, no passadiço, acordes na admiração da colossal avenida de montanhas e ilhas cobertas de palmeiras, que, como pilastras de granito na frente do tempo de Luxor, formam a digna colunata para o pórtico da mais bela baía do mundo".

Em 1862, Charles Expilly, ao escrever Lê Brésil tel qu´il est, faz comparações com outras baías e diz: "O golfo da Bahia não é mais poético. O espanhol esquece nesse momento as suntuosidades de Sevilha e de Granada; o napolitano apenas relembra vagamente as ondas azuis que vêm morrer aos pés da sua cidade voluptuosa".

Ao final do século XIX, Maurício Lamberg escrevendo em 1896 sobre o Brasil, e ao falar do Rio de Janeiro e sua baía, solta a imaginação em "Thalatta! Thalatta! Thalatta! Esta viva e jubilosa exclamação dos gregos ao avistarem o mar que os devia restituir à doce e estremecida pátria, irrompeu-se involuntariamente dos lábios quando ante nós surgiu, no horizonte, em toda a plenitude da sua magnificência, a deslumbrante baía do Rio de Janeiro".

Em 1941, escrevendo Brasil, País do Futuro, Stefan Zweig afirma; "Beleza é coisa rara e beleza perfeita é quase um sonho. O Rio, essa cidade soberba, torna-se realidade nas horas mais tristes. Não há cidade mais encantadora na Terra (...). O Rio não se impertiga diante de quem chega, abre seus braços macios, femininos, recebe-o em grande e carinhoso abraço, atrai, e abandona-se, com certa volúpia, aos olhares admirados (...). Não há cidade mais bela do mundo, talvez não haja outra que seja mais misteriosa, mais heterogênea. Quem viu uma vez, não contestará o que acabo de dizer. Não se consegue conhecê-la inteiramente".

Quando leio todas essas elucubrações fenomenológicas racionalistas ou emotivas, não separo obviamente todo o contexto natural, evidentemente não há Cidade do Rio de Janeiro sem a sua respectiva Baixada Fluminense ou como queiram Recôncavo da Guanabara.

Foram viajantes, que em contato direto com a natureza durante o século XIX, deixaram suas preciosas impressões, falavam com os sentidos, não tinham maiores compromissos políticos, não eram ecologistas ou ambientalistas de carteirinha, não desfraldavam bandeiras de movimentos em defesa da terra, das águas e da atmosfera. As florestas em eram virgens e o planeta ainda era azul.

Àquele século, assistiu aqui na Baixada, o início da grande destruição de tudo que era ecologicamente perfeito e que a mão do divino criador concebeu. As razões obviamente estão ligadas à fome de progresso, do lucro a qualquer custo. Neste rastro de destruição estão as iniciativas progressistas promovidas pelos meios de transportes ferroviário, com o corte e conseqüente derrubada das florestas para a produção do carvão vegetal, fonte de energia para a locomotiva a vapor.


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