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Terça-Feira, 16 de Março de 2010.

São João de Meriti


Migrações na Baixada
Por Maurício Thomaz de Araújo

No decorrer do século XIX cada vez mais acirravam-se as relações entre senhores e escravos. O cotidiano era marcado por episódios de lutas individuais e coletivas dos negros pela sua liberdade.
A elite brasileira, formada por uma minoria branca, se perguntava o que fazer com o negro quando a escravidão terminasse.
Poderiam os escravos ao conquistar a liberdade subverter a ordem e acabar de vez com a tranqülidade dos ricos proprietários, a exemplo do que ocorreu em São Domingos ?
Na busca de soluções para um cenário que apontava para o inevitável, a abolição da escravidão, surgem basicamente três propostas nas Assembléias Legislativas das várias províncias.
Num primeiro momento, a dos emancipacionistas , que objetivava a libertação gradual dos escravos e através de rígidas medidas disciplinares, incorporá-los à sociedade brasileira, apesar da sua inferioridade racial.
Os abolicionistas, que pouco se distinguiam dos emancipacionistas, exceto pela exigência de um prazo fatal para o fim da escravidão.
E, finalmente, os imigrantistas, que surgem principalmente na província de São Paulo a partir de 1860, com o terror suscitado pela onda negra de escravos vindos das províncias do Norte, devido às medidas antitráfico internacional.
Pautados no pensamento positivista de Augusto Comte, os imigrantistas não só afirmavam, como os emancipacionistas e abolicionistas, a incapacidade dos negros para o trabalho livre, como tentavam comprovar através de um racismo científico, a sua incapacidade intelectual.
Enquanto o Vale do Paraíba Paulista estava vazio de mão-de-obra e experimentava o projeto imigrantista, a Província Fluminense, escravocrata, criava empecilhos às tentativas de introdução de trabalhadores livres.
A Província do Rio de Janeiro ainda era, em 1887, o segundo maior pólo concentrador da população escrava do país, somente superado por Minas Gerais. Seu conservadorismo só começou a dar lugar ao imigrantismo, quando o centro exportador cafeeiro se deslocou para São Paulo, a mão-de-obra escrava tornou-se muito cara e o solo ficou esgotado.
Daí em diante, o imigrante passou a ser visto também pela Província Fluminense e mais tarde pelo Estado do Rio de Janeiro, como a redenção dos males. Embranquecer o país e o Rio de Janeiro passou a ser sinônimo de paz e progresso nos discursos dos parlamentares fluminenses.
Em 1888, um pouco depois da abolição saiu um trabalho de autoria de Félix Ferreira intitulado “A Província do Rio de Janeiro, notícias para o emigrante”. O autor indicava as principais características dos 36 municípios da província, principalmente no tocante a agricultura.
Quanto aos municípios da Baixada Fluminense, assim se referia:
Estrela - Município de pouca importância. Produzia café, milho, mandioca e boa cana, atingindo esta a quatro e cinco metros de altura;
Iguaçu - Teve outrora mais importância do que atualmente, acha-se em decadência. Possuía 30 engenhos de aguardente e açúcar, alguns movidos a vapor. A pequena lavoura poderia aí desenvolver-se facilmente, ensaiando culturas apropriadas.
Magé - Embora com terras próprias à exploração agrícola, não era florescente a agricultura.
O documento apontava para o imigrante como região agrícola próspera o Vale do Paraíba Fluminense, dedicada principalmente ao cultivo do café.
Em janeiro de 1877 é aberto o primeiro livro de registro de estrangeiros da hospedaria da Ilha das Flores, em Niterói, pertencente ao governo da União. Esta hospedaria era o maior centro de convergência de imigrantes para o Brasil. No entanto, durante muito tempo, o número de imigrantes que deram entrada na hospedaria e permaneceram na Província Fluminense foi mínimo.
Apesar das hospedarias terem sido criadas para evitar a deserção dos imigrantes, os livros de registros da Ilha das Flores, de 1873 a 1910, mostram que a maioria dos imigrantes se dirigiam para outros estados ou para a Capital Federal.
Em 1896, é inaugurada a hospedaria Estadual da Ilha do Carvalho com objetivo de evitar a perda de imigrantes para outros estados, principalmente São Paulo e Minas Gerais. A hospedaria era um centro distribuidor de imigrantes para duas outras hospedarias do interior, a de Cabiunas, em Macaé e a de Boa Vista, em Paraíba do Sul. Muitos imigrantes que se dirigiram para estas duas hospedarias foram angariados por fazendeiros locais ou para núcleos coloniais. Sendo que, não raro, algumas vezes os imigrantes se negavam a ficar para trabalhar na lavoura fluminense, retornando para a Ilha do Carvalho ou Ilha das Flores.
É que, apesar do governo do Estado do Rio de Janeiro, no final de 1896, subsidiar passagens para atender especificamente o Vale do Paraíba e o Norte Fluminense, não raro, muitos imigrantes se negavam a ficar nestas regiões e retornavam às hospedarias para serem redistribuídos, principalmente para a Capital Federal e suas circunvizinhanças e outros estados.
Já nesta época é possível notar nos registros civis de Maxambomba e Magé a presença de vários portugueses, espanhóis, franceses e até alemães .
Até 1910, em relação à região da Baixada Fluminense, somente encontramos um contrato realizado em 01/11/1907, firmado entre o governo do Estado do Rio de Janeiro e o Sr Midzuno e Raphael Monteiro para a introdução de japoneses na região.
O documento assim dizia sobre a Baixada Fluminense e a imigração japonesa:

“Mergulhada num oceano de lodo, que ela ressurja num verde mar de arrozais e se nenhum outro imigrante ainda a Baixada Fluminense se aclimou ou adaptou, não recusemos o que ele nos oferece e promete...Ele nos dará com certeza o que esse vasto território pode e deve dar, e que, dissecado e saneado, como o patriotismo impõe com a maior e imediata urgência, a semelhança dos antigos baixos do Norte da Alemanha e os das circunvizinhanças de Roma, em centros de atividade industrial e agrícolas.

Os documentos oficiais por si sós, não respondem sobre quando os imigrantes se estabeleceram na Baixada Fluminense, já que as autoridades responsáveis pela imigração não conseguiram determinar plenamente seus destinos, pois, muitos imigrantes eram espontâneos e não declaravam a onde iriam; algumas famílias durante a noite abandonavam as fazendas, sem deixar notícias e durante o desembarque muitos imigrantes subsidiados apresentavam cartas de parentes ou declaravam não serem lavradores, sendo rejeitados e seguindo como espontâneos sem declarar seus paradeiros.
Portanto, registrar a história oral dos descendentes dos imigrantes, que se situaram na Baixada Fluminense, no período supracitado é um bom caminho para estudarmos sua trajetória.
Através do nome completo do imigrante é possível se debruçar sobre os registros de estrangeiros (SPMAF-Niterói) do Arquivo Nacional e descobrir o ano, o navio e a onde estes homens e mulheres foram num primeiro momento.
Desafio maior neste empreendimento é reunir e cruzar dados de vários documentos distribuídos nos diversos arquivos que tratam sobre o assunto: Arquivo Nacional, Arquivo do Estado do Rio de Janeiro e Museu da Imigração, este último em São Paulo.

Bibliografia:

ASCOLI, Nestor. A imigração japonesa para a Baixada do Estado do Rio, 1924.
AZEVEDO, Celia M. Marinho. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das
elites do século XIX., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.
CASTRO, Ferreira de. Emigrantes, Lisboa, 7ª ed., Livraria Editora, 1946.
CORTES, Geraldo M. Migrações e colonização no Brasil. Rio de Janeiro, José
Olímpio, 1958.
FAUSTO, Boris et al. Fazer a América, São Paulo, USP, 1999.
FERREIRA, Félix. A Província do Rio de Janeiro: Notícias para o emigrante. Rio de
Janeiro, 1888.
FERREIRA, Marieta M. et al. A República na velha província. Rio de Janeiro, Rio
Fundo Ed., 1989.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: História da violência nas prisões, Petrópolis,
Vozes, 1987.
GRANDIN, M. Haiti: cultura, poder e desenvolvimento. São Paulo, Brasiliense, 1985.
LINS, Ivan. História do positivismo no Brasil. São Paulo, Ed. Nacional, 1964.
PETRONE, M. T. Schorer. O imigrante e a pequena propriedade. São Paulo.
Brasiliense, 1984.
VIANNA, Oliveira. Evolução do povo brasileiro, Rio de Janeiro, José Olímpio, 1956.


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