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Migrações
na Baixada
Por Maurício
Thomaz de Araújo
No
decorrer do século XIX cada vez mais acirravam-se as relações
entre senhores e escravos. O cotidiano era marcado por episódios
de lutas individuais e coletivas dos negros pela sua liberdade.
A elite brasileira, formada por uma minoria branca, se perguntava o que
fazer com o negro quando a escravidão terminasse.
Poderiam os escravos ao conquistar a liberdade subverter a ordem e acabar
de vez com a tranqülidade dos ricos proprietários, a exemplo
do que ocorreu em São Domingos ?
Na busca de soluções para um cenário que apontava
para o inevitável, a abolição da escravidão,
surgem basicamente três propostas nas Assembléias Legislativas
das várias províncias.
Num primeiro momento, a dos emancipacionistas , que objetivava a libertação
gradual dos escravos e através de rígidas medidas disciplinares,
incorporá-los à sociedade brasileira, apesar da sua inferioridade
racial.
Os abolicionistas, que pouco se distinguiam dos emancipacionistas, exceto
pela exigência de um prazo fatal para o fim da escravidão.
E, finalmente, os imigrantistas, que surgem principalmente na província
de São Paulo a partir de 1860, com o terror suscitado pela onda
negra de escravos vindos das províncias do Norte, devido às
medidas antitráfico internacional.
Pautados no pensamento positivista de Augusto Comte, os imigrantistas
não só afirmavam, como os emancipacionistas e abolicionistas,
a incapacidade dos negros para o trabalho livre, como tentavam comprovar
através de um racismo científico, a sua incapacidade intelectual.
Enquanto o Vale do Paraíba Paulista estava vazio de mão-de-obra
e experimentava o projeto imigrantista, a Província Fluminense,
escravocrata, criava empecilhos às tentativas de introdução
de trabalhadores livres.
A Província do Rio de Janeiro ainda era, em 1887, o segundo maior
pólo concentrador da população escrava do país,
somente superado por Minas Gerais. Seu conservadorismo só começou
a dar lugar ao imigrantismo, quando o centro exportador cafeeiro se deslocou
para São Paulo, a mão-de-obra escrava tornou-se muito cara
e o solo ficou esgotado.
Daí em diante, o imigrante passou a ser visto também pela
Província Fluminense e mais tarde pelo Estado do Rio de Janeiro,
como a redenção dos males. Embranquecer o país e
o Rio de Janeiro passou a ser sinônimo de paz e progresso nos discursos
dos parlamentares fluminenses.
Em 1888, um pouco depois da abolição saiu um trabalho de
autoria de Félix Ferreira intitulado “A Província
do Rio de Janeiro, notícias para o emigrante”. O autor indicava
as principais características dos 36 municípios da província,
principalmente no tocante a agricultura.
Quanto aos municípios da Baixada Fluminense, assim se referia:
Estrela - Município de pouca importância. Produzia café,
milho, mandioca e boa cana, atingindo esta a quatro e cinco metros de
altura;
Iguaçu - Teve outrora mais importância do que atualmente,
acha-se em decadência. Possuía 30 engenhos de aguardente
e açúcar, alguns movidos a vapor. A pequena lavoura poderia
aí desenvolver-se facilmente, ensaiando culturas apropriadas.
Magé - Embora com terras próprias à exploração
agrícola, não era florescente a agricultura.
O documento apontava para o imigrante como região agrícola
próspera o Vale do Paraíba Fluminense, dedicada principalmente
ao cultivo do café.
Em janeiro de 1877 é aberto o primeiro livro de registro de estrangeiros
da hospedaria da Ilha das Flores, em Niterói, pertencente ao governo
da União. Esta hospedaria era o maior centro de convergência
de imigrantes para o Brasil. No entanto, durante muito tempo, o número
de imigrantes que deram entrada na hospedaria e permaneceram na Província
Fluminense foi mínimo.
Apesar das hospedarias terem sido criadas para evitar a deserção
dos imigrantes, os livros de registros da Ilha das Flores, de 1873 a 1910,
mostram que a maioria dos imigrantes se dirigiam para outros estados ou
para a Capital Federal.
Em 1896, é inaugurada a hospedaria Estadual da Ilha do Carvalho
com objetivo de evitar a perda de imigrantes para outros estados, principalmente
São Paulo e Minas Gerais. A hospedaria era um centro distribuidor
de imigrantes para duas outras hospedarias do interior, a de Cabiunas,
em Macaé e a de Boa Vista, em Paraíba do Sul. Muitos imigrantes
que se dirigiram para estas duas hospedarias foram angariados por fazendeiros
locais ou para núcleos coloniais. Sendo que, não raro, algumas
vezes os imigrantes se negavam a ficar para trabalhar na lavoura fluminense,
retornando para a Ilha do Carvalho ou Ilha das Flores.
É que, apesar do governo do Estado do Rio de Janeiro, no final
de 1896, subsidiar passagens para atender especificamente o Vale do Paraíba
e o Norte Fluminense, não raro, muitos imigrantes se negavam a
ficar nestas regiões e retornavam às hospedarias para serem
redistribuídos, principalmente para a Capital Federal e suas circunvizinhanças
e outros estados.
Já nesta época é possível notar nos registros
civis de Maxambomba e Magé a presença de vários portugueses,
espanhóis, franceses e até alemães .
Até 1910, em relação à região da Baixada
Fluminense, somente encontramos um contrato realizado em 01/11/1907, firmado
entre o governo do Estado do Rio de Janeiro e o Sr Midzuno e Raphael Monteiro
para a introdução de japoneses na região.
O documento assim dizia sobre a Baixada Fluminense e a imigração
japonesa:
“Mergulhada
num oceano de lodo, que ela ressurja num verde mar de arrozais e se
nenhum outro imigrante ainda a Baixada Fluminense se aclimou ou adaptou,
não recusemos o que ele nos oferece e promete...Ele nos dará
com certeza o que esse vasto território pode e deve dar, e que,
dissecado e saneado, como o patriotismo impõe com a
maior e imediata urgência, a semelhança dos antigos baixos
do Norte da Alemanha e os das circunvizinhanças de Roma, em centros
de atividade industrial e agrícolas.
Os documentos
oficiais por si sós, não respondem sobre quando os imigrantes
se estabeleceram na Baixada Fluminense, já que as autoridades responsáveis
pela imigração não conseguiram determinar plenamente
seus destinos, pois, muitos imigrantes eram espontâneos e não
declaravam a onde iriam; algumas famílias durante a noite abandonavam
as fazendas, sem deixar notícias e durante o desembarque muitos
imigrantes subsidiados apresentavam cartas de parentes ou declaravam não
serem lavradores, sendo rejeitados e seguindo como espontâneos sem
declarar seus paradeiros.
Portanto, registrar a história oral dos descendentes dos imigrantes,
que se situaram na Baixada Fluminense, no período supracitado é
um bom caminho para estudarmos sua trajetória.
Através do nome completo do imigrante é possível
se debruçar sobre os registros de estrangeiros (SPMAF-Niterói)
do Arquivo Nacional e descobrir o ano, o navio e a onde estes homens e
mulheres foram num primeiro momento.
Desafio maior neste empreendimento é reunir e cruzar dados de vários
documentos distribuídos nos diversos arquivos que tratam sobre
o assunto: Arquivo Nacional, Arquivo do Estado do Rio de Janeiro e Museu
da Imigração, este último em São Paulo.
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