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Quinta-Feira, 11 de Março de 2010.

São João de Meriti


- Conheça mais sobre o hino de São João de Meriti
- Migrações na Baixada
- A Saga de Manoel Congo

- A Canaã do Açúcar

- Baixada 500 anos

- Caminhos Pioneiros

- Família Telles de Menezes

- A Importância Histórica da Imprensa Local

- O Contestado da Pavuna

IPAHB

Tupinambás - O Massacre de um Povo
Gênesis Torres
Professor, Pesquisador e Presidente do IPAHB

Após um ano do tratado, recomeçou a preagem de índios para o trabalho escravo. Os portugueses violavam a paz sem protesto dos Jesuítas; o sonho não pôde ser realizado.

“Usando os mais requintados processos de crueldade, os portugueses conseguiram aterrorizar os próprios índios, já habituados a toda espécie de luta. Somente em pensar nos castigos inenarráveis que se infligiam aos prisioneiros, muitos índios se submetiam ao jugo, vencidos pelo Terror”.

Em São Vicente, as aldeias eram atacadas e desapareciam na voragem das chamas. Cadáveres nas selvas e nas praias atestavam o barbarismo do colonizador.

Reunindo o grande conselho, os Tamoios resolveram responder à altura aos ataques dos “PEROS”. Estava declarada a guerra.

Chegando de Lisboa com uma frota de galeões armados e municiados, Estácio de Sá entra na Baía de Guanabara com cerca de 1.500 soldados e índios Temiminós, que Araribóia trouxe do Espírito Santo. Ele conhecia a capacidade de Aimberê, o chefe das tribos que formavam os Tamoios. Por isso, levaram um ano se preparando para o ataque final, durante o qual peças de bronze eram transportadas para a terra em busca de pontos estratégicos.

Houve o primeiro encontro com a superioridade em armas dos portugueses. Aimberê, com 1500 guerreiros e 160 canoas, não conseguiu resistir às bocas de fogo que faziam saltar com um tiro vários barcos de uma só vez, obrigando-os a recuarem.

Desembarcando em algumas praias, os portugueses passaram a incendiar aldeias, aprisionando famílias e destruindo embarcações. Entretanto, Aimberê resistia.

Informado por Anchieta, Mem de Sá vem para o Rio de Janeiro trazendo reforços, que aqui chegaram em 18 de janeiro de 1567, compostos de três galeões vindos de Lisboa comandados por Cristóvão de Barros, dois navios de guerra e seis caravelões.

Aimberê, sentindo a gravidade da situação, reúne o conselho e pede aos franceses que partam para salvar suas vidas, principalmente seu genro Ernesto. Este, em nome dos patrícios, recusam-se e dizem que ficarão ao lado dos companheiros, lutando até morrer como um Tamoio.

Era o dia 20 de janeiro. Centenas de portugueses e Términos, comandados por Araribóia foram ao encontro dos bravos Tamoios. Milhares de flechas cruzavam o céu, ao rimbombar dos canhões e tiros de escopeta. Os combates corpo a corpo deixaram as águas da Guanabara tingidas de sangue. Na praia, jaziam corpos de índios e portugueses que as ondas teimavam em sepultar.

O Padre José de Anchieta na sua “DE GESTIS A MEM DE SÁ”, conta esta batalha desigual, cantando glórias à covardia do opressor:
“As hordas selvagens contratacam de cima do monte, levantam o grito de guerra que reboa na altura e vibram fremindo os arcos: furor guerreiro os sacode e logo despejam do alto uma chuva de flechas, cobrindo os cumes verdejantes como uma nuvem”.

Assim, quando o vento sul flagela, às vezes, os campos, o granizo despoja dos seus belos cachos as vides e denso saltita sobre os tetos tragicamente soando.

Há um frémito de horror nas matas. Os inimigos resistem com denodo aos assaltantes, rolando pedras enormes, mas aos esquadrões de Cristo nem flechas sem pedras conseguem parar; o soldado, em fileiras cerradas, se arroja teimoso, vence as escarpas, despede certeiro dardos de arremesso. Chegam às mãos: foge o selvagem. Persegue-o, alcança-o, mete-lhe a espada, vara-lhe o peito. A uns a lança de ponta aguda atravessa a ilharga, abrindo à luz do sol, as profundas cavernas da vida e levando à morte aos membros pela larga ferida.

Outros tombam, fendida a fronte a golpes de espada, a outros trespassa o coração a seta ligeira.

E se extasia diante de tanta destruição, enaltecendo o “gesto heróico” do invasor, ao referir-se ao assassinato de famílias inteiras ao calor do fogo, em que 160 aldeias foram queimadas à margem da Guanabara, deixando registrado para a posteridade, que a missão “EVANGELIZADORA” da Igreja era a espada:
“Pelo solo, escorre negro sangue, as matas se encharcam da muita sangueira. Aqui e ali, corpos nus e sem vida jazem nos caminhos e fundos recessos dos bosques”.

Quem poderá contar os gestos heróicos do chefe à frente dos soldados na imensa mata? CENTO E SESSENTA FORAM AS ALDEIAS INCENDIADAS, mil casas arruinadas pela chama devoradora, assolados os campos, com suas riquezas, PASSADAS TUDO AO FIO DA ESPADA! Choraram a perda dos pais os filhos queridos, carpiram as mães inconsoláveis a perda dos filhos, a esposa, agora viúva, chora a morte do esposo.

Morreram muitos à míngua perdidos na selva, e, fato horroroso! Com as próprias mãos, pais desumanos mataram os filhos, que pelos bosques os seguiam chorando, para que o choro deles não atraísse o inimigo.

O terror se estendeu, e estendeu-se o luto profundo: tudo eram lágrimas, prantos e espectros de morte; já há quinze dias, a estrela da manhã, ressurgindo do fundo oceano à frente do carro do sol resplendente, contemplava NOSSO EXÉRCITO A PERCORRER DENSAS MATAS, INCENDIAR CASAS, TALAR CAMPOS, MATAR INIMIGOS.

Após 48 horas de combate, estava arrasado o último reduto dos Tamoios. Seus chefes estavam mortos. Aimberê, Igaraçu, Pindobuçu e seu filho Parabuçu, o francês Ernesto e sua mulher Guaraciaba tiveram suas cabeças cortadas e espetadas em estacas, porque “Daquela raça maldita de Tamoios nada haveria de subsistir nas terras conquistadas pelos portugueses”.

O principal comandante do massacre, Estácio de Sá, foi ferido naquele dia 20 de janeiro, por uma flecha, e morreria um mês depois. Seus ossos foram exumados e se encontram hoje na Igreja de São Sebastião (dos Capuchinhos), no Rio de Janeiro.

Quanto aos ossos de Aimberê, diz Aylton Quintiliano, quem os descobriria nos corpos degolados, massacrados, mutilados e esquartejados, por colonizadores “cristãos” da estirpe dos Mem de Sá, Estácio, Anchieta, Pedro Leitão e traidores como Araribóia?
“Os ossos de Aimberê ficaram sepultados no coração e na memória de todos os verdadeiros patriotas que amam esta terra maravilhosa”.



Bibliografia

ANCHIETA, José de - “De Gestis Mendi de Sá”
Arquivo Nacional - RJ - 1958

BARBOZA MELO, José - “História das Lutas do Povo Brasileiro”
Editora Leitura - RJ.

BARROS, Ney Alberto Gonçalves de - “Baixada 500 anos”
Revista Memória - nº 06 - RJ - 1999

DIAS, Ondemar - “O Pré-Cerâmico no Rio de Janeiro”
Catálogo de Arqueologia - CEA - ETP - IAB
Rio de Janeiro.

QUINTILIANO, Aylton - “A Guerra dos Tamoios”
Reper Editora - RJ.


Ocupações Indígenas na Baía de Guanabara - Primeiros Ocupantes
Guilherme Peres
Pesquisador e membro do IPAHB

Os rios que formam a grande bacia hidrográfica da Baixada Fluminense nascem em sua maioria nos contrafortes da Serra do Mar e do Gericinó.

Nas partes superiores, brotam em intensos declives torrentes, alguns encachoeirados como o Sarapuí, avolumando-se aos poucos no encontro com outros cursos, buscando os leitos definitivos ao receber seus afluentes e coleando por entre morrotes e brejais, em busca da Baía.

Região ideal para a intensa ocupação pré-histórica desse litoral, continha em suas águas abundância de mamíferos marinhos (golfinhos e baleias), peixes e moluscos, bases de subsistência dos primeiros ocupantes.

Iniciados entre 8.000 e 7.000 anos por pescadores/coletores, os ocupantes deste recôncavo formaram a origem de vários aldeamentos indígenas encontrados pelos navegadores, quando aqui aportaram no início do século XVI.

Segundo Elmo S. Amador, “a indústria lítica era pouco expressiva, constituída, principalmente, por artefatos picoteados e semipolidos, lâminas de machado, quebra-coquinhos e percurtores, com raros artefatos sobre lascas, ossos e conchas”.

As populações que habitavam essas áreas costeiras eram agrupadas em macrobandos, provavelmente sedentários ou semi-sedentários.

O último estágio dessa ocupação varia entre 2.500 e 1.500 anos, representado por grupos que faziam seus assentamentos sobre restingas, dunas litorâneas ou próximas às praias abertas, tendo por economia de subsistência a pesca, a caça e a coleta de moluscos. Praticavam também a coleta de sementes e alguma agricultura.

O sepultamento, feito em posição fetal, ocupava pequenas covas cônicas.

Entretanto, segundo o prof. Ondemar Dias, pouco sabemos a respeito desses pioneiros.

“No interior fluminense só muito recentemente foram descobertos vestígios dos seus acampamentos. Pontas de flecha de quartzo hialino e leitoso, lascas e raspadores do mesmo material atestam esta antiga presença”.

No litoral são encontrados vestígios maiores, constituídos pelos restos do que foram os grandes sambaquis, na sua esmagadora maioria destruídos para fabricação de cal, desde os tempos coloniais. Poucos são os que restam, fornecendo dados elucidativos, através da pesquisa arqueológica.

Estes sambaquis podem ser agrupados em dois tipos. Os mais antigos, anteriores às modificações climatológicas, do “ótimo climático”, com idade em redor dos 6.000 anos e os recentes, posteriores a estas alterações. No primeiro caso, a quantidade de conchas é maior; no segundo caso, espessas camadas úmidas demonstram maior diversificação econômica.

Grupos ceramistas iniciaram esta fase cultural, na Era Cristã, e dispersos em grupos fabricaram vasos e recipientes de determinados padrões que tipificam os vários estágios culturais dessa ocupação.

“Até o momento sabe-se que as primeiras comunidades cerâmicas estão filiadas à Tradição denominada Una, com três fases culturais componentes (Una, Mucuri e Piunhi). Através de datações obtidas pelo método do C-14, sabe-se que já ao redor do século VI da nossa Era, grupos tribais Mucuri se fixaram no baixo curso do rio Paraíba. Provavelmente, pela mesma época, mais para o litoral, outros grupos da fase Una ocupavam, inclusive, locais anteriormente habitados pelos Itaipu. Em S. Pedro da Aldeia foi possível localizar-se sítio com esta superposição”.

Em 1º de janeiro de 1502, três naus cruzaram a barra do Rio de Janeiro, comandadas por Gonçalo Coelho e, pilotando a nau capitânea, Américo Vespúcio. Uma exuberante floresta tropical emoldurava a costa, vales, montanhas. Fontes da mais pura água doce jorravam em cascatas das colinas, abraçando neste celeiro centenas de tribos indígenas que salpicavam em torno da Baía.

O encontro inicial com os Tupinambás foi amistoso. Abasteceram-se de víveres deixando “algumas galinhas e degredados”, seguindo viagem para o Sul.

Até a transformação do Brasil em Capitanias Hereditárias, os navegadores franceses foram os mais freqüentes em visitar as costas do Rio de Janeiro, não estabelecendo feitorias, como os portugueses, mas se infiltrando entre as aldeias indígenas e praticando o escambo, provavelmente partindo daí as relações de amizade que fizeram com que grande parte dessas tribos viesse a defendê-los.

“Os povos que aqui viviam transmitiam o que sabiam, apenas através da palavra falada, própria da memória oral. Não deixaram, portanto, documentos escritos de identidade. Não tiveram oportunidade de se apresentar. Poucas vezes disseram como se autodenominavam. Quando o fizeram, nem sempre foram compreendidos”.

Os primeiros colonizadores portugueses, franceses e espanhóis tentaram, em alguns casos, identificar o nome próprio de cada povo, criando, às vezes, uma grande confusão, porque quase sempre desconheciam as línguas faladas pelos índios.

Escrevendo o mesmo nome com grafias diferentes, os navegantes escritores, que visitaram este povo, deixaram anotados para a história registros confusos quanto ao grau de parentesco das diversas línguas que provinham do mesmo tronco. Podemos afirmar, entretanto, que no território do Rio de Janeiro, seus primitivos habitantes falavam vinte idiomas diferentes, pertencentes a quatro famílias lingüísticas.

“A família Tupi, ou Tupi-guarani, compreendia mais de uma centena de línguas, faladas em áreas que pertencem atualmente ao Brasil e a alguns países hispano-americanos. Pelo menos cinco delas eram faladas no Rio de Janeiro, pelos seguintes povos:
- Tupinambá: habitantes das zonas de lagunas e enseadas do litoral, da Guanabara e de Cabo Frio até Angra dos Reis;
- Temiminó ou Maracajá: localizados também na Baía de Guanabara;
- Tupinikin ou Margaya: no litoral norte fluminense e Espírito Santo;
- Ararape ou Arary: no vale do Paraíba do Sul”.

De todas as línguas faladas no extenso território da costa Atlântica, o Tupinambá era o que reunia o maior número lingüístico, sendo o mais assimilado por franceses e portugueses. 46% dos nomes populares de peixes e 35% dos nomes de aves são oriundos só do Tupinambá.

“Da mesma origem são os nomes de muitos lugares e até mesmo de bairros atuais do Rio de Janeiro, que conservaram as denominações das antigas aldeias como Guanabara (baía semelhante a um rio), Niterói (baía sinuosa), Iguaçu (rio grande), Paraíba (rio extenso de difícil navegação), Pavuna (lugar atoladiço), Irajá (cuia de mel), Icaraí (água clara) e tantos outros como Ipanema, Sepetiba, Mangaratiba, Acari, Itaguaí etc.”

Essas palavras indígenas, integradas no nosso vocabulário do dia-a-dia, são uma contribuição valiosa à memória de nosso passado. Memória viva de um povo que teve a sua cultura esmagada sob o jugo do colonizador, por ter preferido a morte no campo de batalha, a viver como escravo e trair sua gente.

ALDEAMENTOS



“No momento da chegada dos primeiros europeus, os índios viviam em aldeias ou tabas espalhadas por todo o território do Rio de Janeiro. A aldeia era a maior unidade política das sociedades indígenas. Cada uma delas tinha autonomia e reconhecia como autoridade maior o seu chefe, tuxaua, morubixaba ou cacique”.

Para algumas áreas, as informações da época são mais precisas. O cosmógrafo francês André Thevet, por exemplo, elaborou um mapa da Ilha do Governador, onde aparecem, só aí, cerca de 36 tabas. Era nesta ilha que ficavam as aldeias Paranapucuhy, Pindó-usú, Koruké, Pirayijú, Coranguá. Outro cronista francês, Jean de Léry, num levantamento parcial, encontrou em torno da Baía de Guanabara um total de 32 aldeias tupis entre 1550 e 1560. Depois, novas listas, também parciais, foram feitas por missionários e cronistas portugueses, acrescentando outras povoações.

O primeiro nome da lista de Léry é a aldeia Kariók ou Karióg, situada no sopé do morro da Glória, na foz do rio Carioca, o rio sagrado dos Tamoios que tinha, além dessa, uma segunda foz, mais caudalosa, na praia do Flamengo, onde se localizava outra aldeia, chamada Urusúmirim ou Abruçumirim.

Próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas existia uma aldeia chamada Kariane. Distribuídas pelos morros de Santa Tereza e Santo Antônio, as aldeias de Katiné, Kiriri, Anaraú e Purumuré. Na região ocupada hoje pelos subúrbios ao longo da Central do Brasil existiam dezenas de aldeias, entre as quais Pavuna, Irajá Catiú, Savigahy, Taly.

Eram centenas e centenas de tabas ao longo de todo o território, habitadas por um número incalculável de índios. Segundo os relatos da época, a população de cada aldeia tupinambá variava entre 500 e 3.000 índios.

COMO VIVIAM



Habitantes do litoral, a família Tupi contribuiu categoricamente na formação étnica do povo Fluminense. Nas crônicas de alguns viajantes, vamos encontrar a descrição de sua vida diária, agricultura, navegação, utensílios, a maneira de caçar, pescar, rituais etc.

Essas aldeias, em geral, estavam localizadas em terras férteis, perto da floresta e do rio, para facilitar a agricultura, a caça e a pesca. Cultivavam, em grandes roças comunitárias, mandioca, milho, abóbora, feijão, amendoim, tabaco, pimenta e muitas árvores frutíferas. Plantavam e teciam o algodão, com o qual faziam suas redes de dormir. Fabricavam cestas de cipó, panelas e vasos de barro, machados de pedra, facas de casca de tartaruga, agulhas de espinhas de peixe, e muitos instrumentos musicais de sopro e percussão.

Segundo os depoimentos dos missionários, eram povos alegres, apaixonados pela música e pela dança. Pintavam o corpo e enfeitavam-se com colares feitos de conchas marinhas, penas coloridas de aves e outros produtos.

“Todas essas atividades só podiam ser realizadas porque os povos Tupis dominavam um vasto campo de conhecimentos. Os antigos Tupinambás, por exemplo, tinham noções de astronomia e podiam prever chuvas e as grandes marés, observando as estrelas, a lua e o sol. Na área da ecologia, conheciam as relações entre os seres vivos e o meio ambiente, os hábitos dos animais, os locais que freqüentavam, as trilhas que percorriam e a época de amadurecimento dos frutos que lhes serviam de alimento. Acumularam saberes sobre a propriedade medicinal dos vegetais”.


A Canaã do Açúcar
Olga Pasquarelli
Professora, Pedagoga, Pesquisadora e membro do IPAHB

Uma das questões mais instigantes para aqueles que fascinam pela história é montar o “quebra cabeça” da vida dos povos, seus costumes, suas gentes, o processo migratório e entender as forças que motivaram esses deslocamentos.

Quando cheguei em Meriti, chamou-me a atenção a existência do campo santo dos imigrantes judeus, que soube estar aqui instalados desde as primeiras décadas deste século XX. O que haveria de mover esse povo, buscar o repouso final em terras de um subúrbio distante de suas moradias: a nossa Vila Rosaly.

A questão ficou adormecida em minha mente, por muito tempo, mas não ao ponto de deixá-la de lado.

Quando tive a grata satisfação de conhecer a Comissão de Resgate da História e seu acervo de obras raríssimas sobre o Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense encontrei uma que considero um material precioso para aqueles que querem entender o processo histórico do povo da Baixada, sobretudo no século XVIII, quando por aqui prosperava a indústria açucareira, principal fonte econômica da época: o livro Vínculo de Fogo de Alberto Dines narra fatos que passarei a discorrer.

Ao falar da indústria açucareira na Baixada Fluminense, nos vemos diante dos cristãos-novos, suas moradas, as famílias, seus costumes, disfarces e pontos de encontro. A descrição é por demais precisa e exerce sobre os pesquisadores uma atração inenarrável.

O autor deixa-nos à vontade para citá-lo quando enfatiza que “não basta ter uma história, importa obter o leitor, só assim começa a existir” (92:353).

E para que o leitor possa entender como eram as nossas terras, naquele século XVIII, há uma descrição, quase poética que todos nós precisamos conhecer.

Este imenso Recôncavo, Canaã exuberante, em vez da toponímia hebraica, arrevessados nomes indígenas: Meriti, Inhaúma, Pavuna, Irajá, Sacopema, Iguaçu, Jacutinga, Jacarepaguá... Estende-se pelo fundo da Guanabara, vai até a orla do mar em Guaratiba. Outro braço contorna os mangues, ultrapassa São Gonçalo e alcança Cabo Frio, com nomes não menos estranhos: Columbandê, Guaxindiba, Maricá e Saquarema.
Daqui não emana o mel bíblico, mas o aroma é doce. Demasiado, roça o azedo. Vem da cana que os escravos cortam, do caldo que escorre nos tachos, lambusa tudo e todos; vem da garapa, do melado, da rapadura e do açúcar que os engenhos fabricam dia após dia, menos no tempo das chuvas” (92:359).
No delta do Recôncavo deságuam vários rios e nas terras encharcadas de Inhomirim e o Irajá localizam-se as lavouras herdadas e engenhos de muitos cristãos novos. Gostam de rios os da nação, para pendurar harpas ou chorar saudades”.

E como aqui chegaram os cristãos novos? A pergunta encontra resposta em mais um momento de nossa leitura, trecho que passo a transcrever para deleite daqueles que como eu se apaixonam por aqueles que nos antecederam nestas plagas.

Pela Lei 1683 o penitenciador por heresia é expulso do Reino; assim a cada Auto da Fé, livra-se Portugal de um pecador e as colônias ganham outros.

Do grande Auto-da-Fé de 1682, que comemorou a reabertura das Inquisições, nada menos do que 11 penitenciados recebem como castigo o degredo para o Brasil. Judeus sabem transformar castigo em prêmio - sua ciência maior - de sorte que cada degredado que aporta em Recife, Bahia ou Rio de Janeiro é acolhido pelos iguais e torna a praticar aqui, quase em liberdade, o que lá se proíbe”. (92:397)

É mister ressaltar que os degredados, salvo os casos em que a sentença determinava confinamentos viviam soltos. (92.396)

Assim, pode-se perceber, que por estas terras da Baixada Fluminense foram se chegando os cristãos-novos e aqui fazendo parte de sua história, construindo um legado que de dores transformaram, pela têmpera, em paixão, aumentando, em número, espalhando-se, multiplicando riquezas e subindo degraus de sucesso. (v. 92:487)


Baixada 500 Anos
Prof. Ney Alberto de Barros
É Professor, membro do IPAHB e Pesquisador da História da Baixada

Fazenda São Bernardino, inaugurada em 1875. Pertencia a Bernardino José de Souza e Mello. Localizada nos arredores da antiga Vila de Iguassu. Encontra-se em deplorável estado de abandono. Tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional (Como Obra de Arte). Constitui o caso mais gritante de desrespeito ao Patrimônio Histórico da Baixada. Essa fazenda surgiu em uma época em que a Vila de Iguassu já estava em fase de decadência, a escravidão chegava ao fim, o que não justificava a construção de tão majestoso conjunto arquitetônico.

O Porto de Iguaçu foi o segundo mais importante porto fluvial da Província Fluminense. Por ele eram exportados os gêneros como café, açúcar, farinha e outros, produzidos pelos Municípios de Iguassu, Vassouras, Valença, Paraíba do Sul e até de Minas Gerais. Esses produtos desciam pela Serra do Tinguá onde estava a Estrada do Comércio e tinha ponto final no porto. Sua decadência começou com a inauguração da Estrada de Ferro Pedro II. O seu período áureo foi dos anos de 1830 a 1860.

Vamos contar hoje um pouco sobre a História de Nova Iguaçu, sua origem, quais foram as tribos indígenas que aqui viveram, como foram disseminadas e as atividades econômicas. Agora embarcaremos rumo ao passado, mas precisamente no ano de 1933, quando o município de Iguassú completou cem anos de existência e se podia estufar o peito, orgulhosamente. Seus 1.489 quilômetros quadrados compreendiam extenso território, do qual seriam emancipados vários municípios.

Por ocasião do centenário, o município estava sendo preparado para duas atividades que o tornariam famoso:
1º Nos terrenos, molhados, as olarias produziam tijolos e telhas, desmontando morrinhos, aproveitando barro de excelente plasticidade.
2º Nos terrenos mais elevados, os laranjais ( Citricultura ) eram multiplicados, exportando larga produção, com frutos conhecidos, internacionalmente.

Mas a maior participação daquele imenso território na História Mundial deve ser creditada aos mais antigos habitantes, os verdadeiros donos da terra, aos "índios" tupinambás. Foram chacinados.

Na metade do século XVI, franceses que protestavam contra o que consideravam farsas da Igreja Católica Apostólica Romana, seguindo a orientação de Martinho Lutero, protestantes, comandados por Villegagnon tentavam implantar na Baía do Rio de Janeiro (Baía de Niterói ou da Guanabara, estas denominadas Tupis) um refúgio, para os cristãos perseguidos na Europa. Os protestantes franceses fizeram contatos amistosos com os tupinambás. Estes preferiam a amizade dos franceses à escravidão imposta pelos representantes da Monarquia de Portugal.

Cento e Sessenta Aldeias Incendiadas - Os antigos habitantes - para uma resistência às tropas que os queriam no cativeiro - formaram uma união, que foi chamada de Confederação dos Tamoios. As atuais baixadas de Sepetiba e Fluminense, as ilhas (próximas de ambas) e as margens daquelas ditas Baías, eram um maravilhoso pedaço de Pátria Tupinambá.

Dois Jesuítas, José de Anchieta e Manoel da Nóbrega - cuja principal "tarefa espiritual" era a de dar combate à Reforma Religiosa (proposta por Lutero) - comandaram, intelectualmente, o massacre aos tupinambás.

Anos após, na Capela de São Lourenço, depois que cento e sessenta aldeias foram incendiadas e seus habitantes mortos degolados, Anchieta escreveu um "teatrinho", para servir de lavagem cerebral às criancinhas indígenas de outras tribos, deslocadas para Niterói. No Auto de São Lourenço, Anchieta cita algumas tribos tupinambás destroçadas e, entre elas, estão as que viviam na ilha de Parana-Puã (atual do Governador) e na atual Baixada Fluminense, como a aldeia de Jacutinga. Quantos tupinambás viviam nas 160 aldeias? No dito "teatrinho", o assassino Anchieta se refere à cultura Tupinambá, como coisa do demônio, só porque os heróicos donos da terra lutaram por alguns bens fundamentais, suas terras (coletivismo agrário), sua cultura, a liberdade.

Segunda Monstruosa Chacina - Os tupinambás queimados tiveram, posteriormente, uma segunda chacina, a do esquecimento, proposital (por parte dos bajuladores do Colonialismo), relativamente ao heroísmo e àcultura dos valentes defensores dos seus bens. A Cultura Tupinambá, a exemplo do que ocorreria com a maravilhosa cultura Africana (ver Confederação dos Palmares), foi varrida dos mapas históricos. Precisamos resgatá-las, para melhor entendimento do passado, do presente e do futuro. Para honrá-los, desmistificando os escravistas.

Território de Passagem - As terras que constituíram o extenso Município de Iguassú sempre foram, depois dos Tupinambás, uma região para servir de trânsito. Todas as obras, anteriores à explosão demográfica, tiveram a intenção de usar o território para que por esta passagem passassem a produção de ouro e prata, café, produtos importados, água (canalizada), energia elétrica, etc. Mas, na verdade, tais "linhas" serviam para que o território, já que o interior do país sempre esteve ao abandono, sem Reforma Agrária, por exemplo, abrigasse irmãos brasileiros e estrangeiros, pobres.

Nova Iguaçu e os municípios que agora irão caminhar com seus próprios pés, conseguiram ser uma síntese do Brasil, porque traços culturais diferentes marcaram aqui, um encontro com o futuro. Para a elaboração de uma nova e mais verdadeira e mais forte cultura.

Os prefeitos e vereadores desta região já estão demonstrando, além dos compromissos inerentes às missões voltadas para necessidades básicas, a necessidade do resgate do nosso Patrimônio Cultural. E não devem abandonar o interesse pela cultura dos tupinambás e africanas. Árvores fortes têm raízes maravilhosas.


Caminhos Pioneiros
Guilherme Peres
É pesquisador e membro do IPAHB

Veredas abertas pelas constantes passagens dos índios, precederam os caminhos abertos pelos colonizadores entre a costa do Rio de Janeiro e o interior.

O caminho dos Guaianases, que partindo de Parati ia alcançar o alto Paraíba através da Serra da Cunha, é exemplo deste pioneirismo.

Mesmo depois de abandonado este "Caminho Velho", durante todo século XVIII continuou a servir de escoadouro da produção colhida nos engenhos e fazendas de serra acima que desciam em busca de águas da Baía da ilha Grande. Dois registros foram construídos neste caminho, formando uma barreira para verificação dos "Quintos". Cargas e passageiros eram examinados à procura de ouro ou diamantes: "um registro ficava em Taubaté, para os que destinavam a São Paulo, e outro em Parati, para quem buscava o Rio de Janeiro".

Em 1725 o capitão-general Rodrigo César de Menezes, conseguiu abrir caminho entre o Rio de Janeiro e São Paulo, "apesar de já estar em uso o caminho novo do Pilar, aberto por Garcia Paes, através da Baixada Fluminense. Para maior segurança da Real Fazenda" e desviar a rota dos que seguiam a Parati, fugindo dos freqüentes naufrágios da embarcações e ataques de piratas na Baía de Ilha Grande.

Este caminho que seria conhecido mais tarde como Estrada Real de Santa Cruz, saia do Rio de Janeiro em direção a Campinho e ao Engenho dos Afonsos, onde hoje se acham o parque da Aeronáutica e o Campo dos Afonsos. Atravessava a antiga fazenda dos Jesuítas e a Freguesia de Santa Cruz. Transpunha o rio Guandu e Itaguaí, que era cortado duas vezes, uma perto da aldeia em Itaguai e outro no registro do mesmo nome, já nas cabeceiras deste rio. Aí deixava o litoral, em direção a Guarda do Pouso Frio, Ribeirão das Lajes, Pouso do Vigário, no rio Piraí e a Guarda do Coutinho. O rio Piraí era divisa com a capitânia de São Paulo e a partir dele a estrada seguia através de florestas desabitadas, buscando Guaratinguetá. Com o correr dos tempos, formou-se à margem desse caminho as localidades de São João Marcos, do lado fluminense, e Bananal, São José do barreiro e Areia, em território paulista.

"Foi esse o caminho da jornada histórica de Pedro I, em 1822 para o grito de Independência nas margens do Ipiranga".

Em carta enviada ao rei de 24 de maio de 1698, Arthur de Sà, governador "das províncias" do Rio de Janeiro, expunha as pretensões de Garcia Rodrigues Paes a abertura de um novo caminho, que encurtaria "para pouco mais de 15 dias" a viagem de 3 meses do Rio de Janeiro às Minas.

O caminho seria construído pelo filho do "Caçador de Esmeraldas", às própias expensas. A recompensa ser-lhe-ia dada em empregos, sesmarias e o "monopólio por dois anos do tráfego de gêneros de comércio, uma vez termina-se a sua custa o caminho".

Mas, para concluir o trabalho da estrada em toda a sua extensão, "sentiu-se exausto de meios". Havia consumido nesta lida muitos haveres herdados e adquiridos na mineração do ouro. Teve de pedir socorro ao seu cunhado, coronel Domingos Rodrigues da Fonseca Leme, "concorrendo (este) com o seus escravos e acabando a obra às custas de grandes cabedais".

O mapa da capitania do Rio de Janeiro, desenhado pelo Sargento-Mor Manoel Vieira Leão, por ordem do Conde da Cunha, mostra que o caminho de Garcia Rodrigues Pais saia da Freguesia Nossa Senhora do Pilar, remontava o curso do rio Pilar e passava pelo Couto, cortava o rio Santana, próximo às suas cabeceiras e transpunha a serra de Manga Larga, para chegar à Freguesia do Alferes, depois Pau Grande, Caburú , Vargem e finalmente, chegar a Freguesia de São Pedro e São Paulo e à Guarda do Paraíba.

Em 1699, afirma Basílio de Magalhães, já era praticável por pedestres a picada entre a Baía de Guanabara e Barbacena. Entretanto, tomando conta dos trabalhos em sua fase final, o coronel Domingos Rodrigues construiu um novo desvio para este caminho, descendo pela Serra do Mar, seguia rumo a Macacos, Gericinó até Pavuna em direção à sede da Província do Rio de Janeiro.

"Em 14 de Julho de 1709, por carta o rei agradeceu a Garcia Rodrigues, doando-lhe quatro sesmarias", e mais uma a cada filha ao longo do Caminho Novo: Borda do Campo, Mathias Barbosa, Paraíba do Sul e Macacos (Paracambi) ao pé da serra por onde desceu uma das variantes deste caminho. O coronel Domingo Rodrigues, "que auxiliara eficazmente Garcia Rodrigues Paes, foi nomeado cobrador das estradas e Provedor das Quintas, tendo para isso estabelecido o Registro de Borda do Campo, em uma sesmaria também recebida".


Família Telles de Menezes
Gênesis Tôrres
Professor de História, Pesquisador e membro do IPAHB

A história dos Telles de Menezes começa no Século XI, mais precisamente em Portugal, da família de fidalgos portugueses, de grande relevância na Corte, três membros se deslocaram para o Brasil no século XVI, incumbidos pela Coroa de participarem da resistência as invasões francesas no litoral brasileiro. Primeiramente, se instalaram na Bahia, onde tiveram papel de destaque em todo período colonial. Diogo Lobo Telles de Menezes, um dos três irmãos, veio para o Rio de Janeiro, tornando-se o precursor da família no Estado.

Foram os primeiros Menezes no Rio os responsáveis por inúmeras construções importantes da Colônia e do Império, como o juizado de Órfãos da antiga Capitania, o Arco dos Telles e a Casa do Senado, entre outras. A família crescia e se consolidava como uma das mais prestigiosas na Corte, em especial pelas figuras do Juiz Francisco Telles Barreto de Menezes, e Francisco Pinto da Fonseca Telles, também conhecido como Barão da Taquara, então proprietário das terras da Taquara, Pau da Fome e União Camorim na região que hoje é Jacarepaguá.

Por volta de 1700, a família já era proprietária de terras em toda Capitania, aparecendo como sesmeira na antiga freguesia de São João de Meriti, sob a liderança de Luiz Telles Barreto de Menezes. Seu filho Pedro Antônio já nasceu em terras meritienses, sendo mais tarde o responsável pela compra de uma grande área que viria a formar o Engenho do Barbosa, mais tarde Fazenda dos Telles. Essas terras formam hoje as localidades de Vilar dos Teles, Coelho da Rocha e parte do município de Duque de Caxias. Em 1864, toda a propriedade tinha 453 alqueires de terra, constituindo a propriedade do Comendador Pedro Antônio Telles Barreto de Menezes.

Brasão de Armas

Comendador Telles

O Comendador Pedro Antônio Telles Barreto de Menezes era filho de Luiz Telles Barreto de Menezes e de D. Maria Rita Felicidade da Gama e Freitas, neto paterno do Dr. Francisco Telles Barreto de Menezes, juiz de Órfãos, e de D. Francisca Joaquina de Oliveira Brito e por parte materna de Pedro Antônio da Gama e Freitas, e de D. Ana Maria Gurgel do Amaral.

Pedro Antônio Telles Barreto de Menezes era Cavaleiro da Ordem de Cristo, subdelegado e juiz de Paz da Freguesia de Meriti, proprietário na Corte e fazendeiro no município de Iguaçu. Foi condecorado com a Imperial Ordem da Rosa, no grau de Comendador e ocupou o cargo honorífico de Delegado de Capitania.

O direito ao uso do Brasão d'Armas lhe foi concedido em 27 de Abril de 1868, conforme consta do Registro no Cartório da Nobreza, livro VI, fls. 97 e o modelo das armas foi copiado da estrutura da pedra tumular do Doutor Antônio Telles Barreto de Menezes, no seu jazigo existe na Capela do Convento da ilha do Senhor Bom Jesus, sendo a seguinte, a sua descrição:
Brasão de Armas: Escudo Aquartelado: no primeiro quartel em campo de prata, um leão de púrpura rompante. No segundo, em campo verde, uma banda de góles acoticada de ouro, saindo das bocas de duas cabeças de serpes. No terceiro, em campo azul, cinco estrellas de ouro de seis pontas, em aspa. No quarto, de ouro, com seis lobos de goles, postos em duas palas; e no meio, um escudete, tendo em campo de oiro um anel encoberto. Timbre: uma meia donzella vestida de oiro, com um escudo nas mãos; e por diferença, uma brica de azul com lettra P de ouro. (Brasão passado em 27 de Abril de 1868. Reg. No Cartório da Nobreza, Liv. VI, fls.97).

Fazenda dos Telles

A obrigação da exploração do solo, como exigência para a posse das sesmarias, fez surgir à margem da Baia de Guanabara um pequeno povoado com o nome de "São João Baptista de Trairaponga" sob a prelazia do reverendo Antônio Marins Loureiro, criado em 10 de Fevereiro de 1647.

Elevado à categoria de freguesia, Trairaponga conheceu a opulência de seu solo. Baseado nas grandes propriedades e a produção do trabalho escravo, teve seu nome mudado em 1774 para São João Baptista do Miriti.

Lugar de passagem obrigatória para as tropas de mulas que se deslocavam para as regiões mineradoras graças ao leito raso do rio, Miriti teve na "Estrada de Minas" seu ponto de referência para os primeiros ocupantes da atual Avenida Getúlio de Moura, e a proximidade do Porto da Pavuna.

Com a cultura da cana-de-açúcar e lavouras de subsistência foram surgindo nesta região nada menos que nove engenhos cujos principais (baseando-se na produção e no número de escravos) eram: do Porto; N. Sra. Da Ajuda; Covanca; Pavuna; São Mateus; Bananal Gericinó e do Barbosa, este, motivo de nossa pequena exposição Histórica.

Construída no final do século XVIII, a sede desta fazenda constituía-se, segundo Afrânio Peixoto, do "mais importante solar da Baixada Fluminense". Resguardado por uma alameda de palmeiras imperiais do grande casarão de dois andares, era adornado em sua entrada com imponentes escadarias de pedra talhada, encimada por grandes portas laterais.

Segundo José Matoso Maia Forte, foi concedida ao Capitão Luiz Telles Barreto de Menezes, em 18 de Janeiro de 1821, uma "Data de Terra" no "Barbosa", já aparecendo na Segunda metade deste mesmo século como "Fazenda dos Telles" com engenho de propriedade do Comendador Pedro Antônio Telles Barreto de Menezes que se destacara como um dos grandes produtores de açúcar e aguardente da região.

Poucos foram os antigos casarões-sede destas fazendas que sobreviveram à chegada deste século. Entretanto com a morte do Comendador em 1882, divergiram os irmãos quanto ao destino do velho solar e resolveram deixá-lo em condomínio sob os cuidados do Primogênito Pedro Telles Barreto de Menezes.

Com o falecimento deste em 1919, o palacete ficou totalmente abandonado, sofrendo saques e depredações, até que, na metade deste século, entre loteamentos que retalhavam a velha fazenda, ainda se viam restos de ruínas e algumas palmeiras que resistiam à ação do tempo.

Casa da Grota

Remanescentes desta fazenda, restaram em São João de Meriti três antigos casarões no bairro Venda Velha, pertencentes àfamília Telles de Menezes. Uma delas restaurada (descaracterizada) e transformada no "Sítio Carioca", palco de festas e eventos da sociedade local. A outra serve de moradia a seus descendentes e está relativamente conservada.

A terceira chamada a Casa da Grota mantém todas as características originais do século passado: originalidade arquitetônica, assoalhos, forro, lustres, janelas envidraçadas, móveis, biblioteca, etc... constituindo em seu conjunto, raríssima relíquia histórica.

Esta casa, assim como toda a área que a rodeava pertenceu a Antônio Telles Barreto de Menezes, que a construiu no final do século passado.

Com sua morte, sua neta, D. Dulce da Silveira Menezes, herdou seus bens e passou a residir no local, juntamente com seu marido, Alberto Jeremias da Silveira Menezes, que passaram a explorar os recursos locais: criação de galinhas, laranjais e reativação da pedreira.

Com a morte deste, D. Dulce resolveu mudar-se com a família para não mais voltar. Aos poucos foram abandonando a casa, ficando esta no estado precário que se encontra hoje.

Manifestada em nosso tempo, ou recebida de gerações anteriores, é tarefa meritória salvar o que resta deste único patrimônio histórico de nossa cidade (talvez da Baixada Fluminense) que tem como objetivo repassar às gerações futuras, os valores históricos, estéticos e culturais que dão a cada comunidade sua individualidade.

Contar o passado ao presente é informar como as obras foram produzidas, e como foram integradas a um organismo em contínuo processo de evolução.

A perda de documentos, fotografias, conjuntos arquitetônicos, etc... que constituem a memória de um povo, leva também à perda de referências que mostram sua identidade cultural.


Ahhh!... Essas Mulheres...
Gênesis Tôrres
Professor de História, Pesquisador e membro do IPAHB

Chega ao fim mais um século. Poderia ter sido como todos os outros, não fosse a grande libertação e participação das mulheres no cotidiano de suas e de nossas vidas. O século XX será lembrado no próximo século como o das conquistas femininas, das transformações no comportamento diante da libido e da independência social, econômica e política.

Nesta oportunidade, gostaria de lembrar alguns fatos ocorridos nas terras de Meriti ao longo destes 500 anos, no que toca a participação das mulheres no dia-a-dia da sociedade. Revendo o relatório do Marquês de Lavradio de 1769/79, quanto às atividades econômicas e suas unidades produtoras, encontramos surpreendentemente o nome das seguintes mulheres proprietárias: Na Freguesia de São João Baptista de Meriti havia o engenho de Gericinó, que pertencia a D. Maria Andrade. Os rios que banham Meriti possuíam 14 portos. No Meriti, o porto da Valla, que pertencia a Catharina Maria de Mendonça, com 01 barco, e o de Anna Ferreira, com 01 barco. No Sarapuhi, o porto de D. Antonia, com 01 barco, o de D.Maria das Neves, com 01 barco, e o de D. Anna, com 03 barcos.

Ao final do século XIX e início deste, vamos encontrar como proprietárias de terras nas áreas centrais do hoje 1º Distrito as senhoras Maria Peixoto (loteou suas terras e na cota municipal ficou reservado o terreno que posteriormente serviu para construção do Hospital de Caridade) e outras como D. Lara e D. Maria Lucina, D. Maria Gorda, proprietária de terras em São Mateus e Vila União, e das terras de Ana Lima, em São Mateus.

Neste século, lá pelas primeiras décadas, merecem destaque figuras como da Professora e Advogada Nazaré Sutinga que em 1930, em uma reunião social, faz um veemente discurso lançando o nome de Getúlio de Moura a vereador na Câmara de Iguaçu, contra o Interventor Sebastião de Arruda Negreiros.

Há que se destacar na Educação as Professoras Amélia Plalon de Carvalho, Alzira dos Santos, Judith de Castro, Francisca Jeremias (mãe de Dr. Alberto Jeremias), Gesuína Maciel, Francisca Cezar, descendente do Major Augusto Cezar, e muitas outras.

Na cultura, foram incentivadoras do teatro: Áurea Paiva, que tornou-se grande estrela no Rio, Guiomar Esteves da Silva e no piano a Prof. Mércia Diniz de Brito.

Como mãe e exemplar educadora a senhora Alice Rosa, fundadora da lª Igreja Batista de Meriti e mãe do Dr. Eliasar Rosa e do Juiz de Direito Elieser Rosa.

Outro grupo de influentes mulheres que pelas suas atuações deixaram traços de fortes personalidades e caráter foram: Olívia Bitencourt, Rosali Farrula - esta, esposa do Dr Rubens Farrula, que emprestou seu nome ao bairro onde residiu por longos anos, a Vila Rosali. Lembramos também de D. Joaquina Telles Rocha Farias, filha do Comendador Pedro Antonio Telles Barreto de Menezes, esposa do eminente médico e Prof. Dr. Rocha Farias.

Naqueles tempos da primeira metade do século que ora terminavam, em que Meriti pouca ou nenhuma assistência médica existia, a figura da abnegada de D. Mariana, moradora de Engenheiro Berford, de família abastada, atuou por longos anos como parteira. Sua atuação foi de vital importância nas comunidades carentes no momento do nascimento. E por falar em nascimento, lembramos que o primeiro registro de nascimento feito no distrito de Meriti foi de uma menina chamada Mariana Luiza Souza, em 18 de Janeiro de 1889.

Com a emancipação em 1947, após longo período da ditadura Vargas, notabilizamos a participação das mulheres na vida pública. Acrescentamos abaixo aquelas que lograram êxito como as vereadoras:
- Carmem Bastos e Dauta Joubert Barreto, de 1947/50: ambas assumiram a bandeira do Partido Comunista como luta contra as injustiças sociais;
- Presciliana Muniz da Rosa, Sara Marins Fontes D’Avila e Antonieta Colluci Médici, de 1951/55: viveram seus mandatos num dos mais difíceis momentos de nossa história política, com a Câmara dividida, onde os interesses pessoais estavam acima dos da comunidade. No entanto, foram exemplos de luta em prol da justiça social;
- Maria Lúcia D’Ávila Pizzolante: formada em Direito e em Línguas Neolatinas pela Sorbone (França). De 71/73, foi Presidente da Câmara Municipal, tornou-se mulher guerreira e que portando um chicote lutou contra a cultura da corrupção. Hoje, dedica-se ao jornalismo, dirige a Revista Persona, em Brasília, e empunha a permanente bandeira do feminismo, tendo sido membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e recebeu de Portugal a comenda da Ordem do Mérito, possuindo vários livros publicados;
- Gabriela Andrade Figueira, de 71/73: filha do emancipador Deputado Lucas de A. Figueira, mostrou-se uma mulher experiente e alto espírito público;
- Clévia Medeiros, de 1997/2000;
- Tendo ainda atuado como Vice-Prefeita a Prof. Alzira dos Santos Soares, de 1967/70: mulher de grande espírito público e conciliadora dos interesses municipais.

Ao final deste século, destacamos a figura emérita de Almerinda de Carvalho, pois, ao longo de sua vida tem sido um exemplo de luta pelos interesses dos munícipes, como fundadora e Presidente da Fundação de Assistência Comunitária. Vem desenvolvendo um grandioso trabalho social e, merecidamente, foi eleita Deputada Federal, com o reconhecido apoio de toda comunidade meritiense. Sua votação foi a maior registrada até o momento. É a primeira mulher a representar o nosso município em Brasília. Como já era de se esperar, seu trabalho é exemplar, está dignificando, honrando e exaltando o nome das mulheres de nossa terra, sem descuidar do seu importante papel como mulher e mãe.

Diante dessas grandezas, a constelação de Meriti se orgulha em ter no chão tantas estrelas, que ao longo dos séculos emprestaram brilho à luta em fazer desta terra um lugar de amor e justiça.


A Importância Histórica da Imprensa Local
Gênesis Tôrres
Professor de História, Pesquisador e membro do IPAHB

Inicialmente, quero dar os parabéns ao Jornal A Voz de Meriti, por estar completando cinco anos de atuação, já que é o único jornal hoje existente no município. Deve merecer, de todos nós, o respeito e colaboração para que tenha vida longa. É um jornal que tem procurado afinar com a voz de Meriti, município que historicamente tem sido um marco de luta e resistência contra o descaso e incompetência.

A crise econômica e financeira atingiu a todos e o empresário contabiliza cada centavo na poupança para compor o orçamento financeiro. Fazer imprensa local, do ponto de vista econômico, torna-se uma tarefa bastante difícil. Por outro lado, reconhecemos a enorme importância do jornal da cidade, pois é ele o responsável e guardião dos interesses e das lutas das comunidades locais.

A história da imprensa no Brasil teve seu início com a chegada da Corte Portuguesa, criando a Imprensa Régia por decreto de 13 de maio de 1808. Antes, porém, durante o período colonial, não tínhamos nenhuma publicação em revista, livro ou jornal, pela simples razão de não existir tipografia no Brasil. É com a chegada da família real, com todo seu séquito e homens das letras, artes e intelectuais diversos é que vamos começar esta importante atividade humana, a informação.

O primeiro jornal criado no Brasil foi a Gazeta do Rio de Janeiro, inaugurado em 10 de setembro de 1808. A partir daí surgiram: O Patriota, revista de cultura (1813/1814); O Verdadeiro Patriota (1820/1821); Anuário Histórico Brasileiro (1821/1824); O Espelho (1821/1823); Diário Fluminense (1824/1831); e muitos outros que se seguiram.

Vivia a Europa um período de ouro na produção do saber. Experimentava o mundo, os questionamentos das velhas estruturas absolutistas iniciadas com a Revolução Americana de 1776 e a Revolução Francesa de 1789. Neste momento de incandescência revolucionária, a divulgação dos fatos, a formação das idéias no seio das camadas populares começava a se firmar, já que os livros eram privilégios de uma minoria encastelada. Firmava-se, assim, o jornal como importante instrumento de luta das diversas camadas sociais.

No Brasil Império, a imprensa assumiu a luta da Independência, a pressão contra D. Pedro I, as lutas liberais do período Regencial, as questões escravistas com as campanhas abolicionistas e as campanhas Republicanas. Naqueles tempos, em que os meios de comunicação eram o lombo dos animais, fazer circular o jornal era tarefa quase impossível, ficando restrito à comunidade local. Sua linha editorial restringia-se às questões literárias e ideológicas da sociedade. Nestes 192 anos de imprensa no Brasil, e participando de forma intensiva das questões globais da sociedade brasileira, acabou por inspirar a formação de uma plêiade de jornalistas e escritores que se destacarem no cenário nacional.

Notabilizamos assim, o quanto foi importante o jornal local, alguns em forma de folhetins, outros pela sua crítica contundente e liberal foram chamados de pasquins, outros pela sua pouca postura ética e moral ficaram caracterizados por imprensa marrom. Tiveram estes jornais vida efêmera para cumprir uma missão; surgiram e desapareceram em um determinado momento. No entanto, os jornais mais comprometidos com a verdade dos fatos acabaram por merecer da comunidade a sua sobrevivência.

Retomando as questões de valorização do jornal local, hoje a grande imprensa pela sua eficiência de distribuição pode ser encontrada em qualquer rua dos mais longínquos bairros e dos mais difíceis acessos uma banca ou uma barraca vendendo o grande jornal. O povo tem grandes necessidades de informações e consome as mais diversas notícias como emprego, classificados, coluna social, sexo, esporte, violência, droga e outras quinquilharias deste noticiário do dia-a-dia, e, às vezes, de pouca utilidade na comunidade local. Poucos são os que têm percebido que o papel desempenhado pela grande imprensa é o de globalizar ideologicamente o homem, vender produtos da grande mídia e manter sob controle os comportamentos do homem como ser social.

A imprensa representou, e tem representado, os interesses de categorias sociais dominantes, não importando se do ponto de vista econômico, social, político, religioso ou cultural, se é eticamente correto. Devemos saber e entender que a sociedade é assim mesmo, é formada de homens que pensam e pelos meios disponíveis divulgam suas idéias e ideologias, tentando arrebanhar para o seu grupo o maior conjunto de indivíduos alinhados com tais comportamentos.

No entanto, é no jornal local e não na grande imprensa que está o registro dos fatos que interessam a comunidade. Obviamente, se este jornal cumprir o seu verdadeiro papel de radiografar e registrar os maiores e menores fenômenos que tenham repercussão social. O pesquisador das Ciências Sociais tem no jornal uma fonte inesgotável de informações. Sendo um jornal ideologicamente comprometido com a verdade, sua credibilidade aumenta para o pesquisador. Caso contrário, só resta usá-lo como fonte para caracterizar o conteúdo e a personalidade da comunidade, uma espécie de que “o povo tem a imprensa que merece”.

São João de Meriti não tem uma história da imprensa muito rica, salvo algumas exceções, podemos citar os jornais “O Farol” (o mais antigo), seguido pelo “A Marreta”, “O Limite”, “A Garota Fluminense”, “14 de Dezembro”, todos ligados ao processo emancipacionista da década de 1940. Após este período, aparece o “Jornal de São João de Meriti”, “Jornal do Povo”, “Tribuna Fluminense”, “Voz de Meriti”, “Tribuna Democrática”, “A Voz dos Municípios”, “O Empresário” e a “A Dica”. Este último foi o que teve vida mais longa neste final de século.

Atualmente é a “Voz de Meriti”, do empresário Francisco Laércio Maciel, que vem resistindo às dificuldades de uma comunidade que não valoriza a imprensa local. No entanto, assistimos a uma enxurrada de jornais do tipo tablóide em ano de eleição. Estes órgãos surgem como num toque de mágica para defender determinadas candidaturas. Tem cara de jornal, tem classificados, coluna social, de esporte e até colunistas, no entanto, suas opiniões e informações não merecem credibilidade, pois seu conteúdo é tendencioso e apócrifo e não chega se quer ser um folhetim. Seu último número tem data certa - as eleições.

Na Baixada, os mais antigos jornais em circulação são o “Correio da Lavoura”, de Nova Iguaçu, e a “Folha da Cidade”, de Duque de Caxias. E o único com tiragem diária regular é o “Hoje”, também de Nova Iguaçu. Estes jornais vêm prestando um inestimável serviço de informação às comunidades em que estão inseridos.

Provinciano ou local, o jornal não pode curvar-se ou ser bajulador de interesses mesquinhos dos grupelhos políticos. Há de ser voz da comunidade na sua hercúlea luta pelas melhorias das condições de vida. Deve perseguir incessantemente a verdade, atuando com maestria na arte de descobrir, no emaranhado dos fatos do cotidiano, aqueles que possam informar ao leitor o que é importante, e que faz a comunidade avançar na eterna busca do aperfeiçoamento de suas instituições públicas e privadas.


O Contestado da Pavuna
Gênesis Tôrres
Professor de História, Pesquisador e membro do IPAHB

Dia 26 de janeiro do ano em curso, a XV Região Administrativa da Pavuna, promoveu uma série de eventos com o objetivo de comemorar a passagem dos 117 anos daquele importante bairro da zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Tal fato motivou-me a escrever este artigo, não para elucidar fatos, mas para trazer à reflexão histórica algumas questões de limites que foram suscitadas em decorrência da decisão do Governo do Estado do Rio de Janeiro, em decreto nº 1, de 8 de maio de 1892, que colocava as terras da atual Pavuna nas áreas territoriais do Município de Iguassú.

Os fundamentos da contenda pelas partes, encontram-se dentro dos fundamentos que norteiam em geral as questões de limites em qualquer parte do Brasil e do mundo, as quais sejam razões geo-históricas e geopolíticas, as duas teses sempre correm ao sabor dos interesses locais. A regra geral não virou exceção em nosso limite com o antigo Distrito Federal. O que o decreto de 1892 estabelecia era inclusão das terras da Pavuna nos territórios do Município de Iguassú e que hoje provavelmente seria território de Meriti.

Sabemos nós que o Rio Meriti aparece nas cartas geográficas, relatos de viajantes, cronistas e historiadores desde o século XVI e que nestes 500 anos de história configurou-se chamar de Meriti-Pavuna toda a potamografia que nascem nas Serra de Gericinó e seguem para desaguar na Baía da Guanabara num percurso de aproximadamente de 13 km. Como afluentes da Bacia do Meriti, além do Pavuna, está também o Acari com vários outros afluentes.

Em 15 de Janeiro de 1833, quando foi criada a Vila de Iguassú, ficou definido que suas “freguesias” (Distritos Eclesiásticos) eram as de Iguassú, Inhomirim, Pilar, Jacutinga, Merity e parte de Marapicú. Esses Distritos foram os embriões dos distritos criados com a Proclamação da República e do qual as terras banhadas pelos rios Meriti-Pavuna passaram a fazer parte do Distrito de Meriti. Historicamente, a ocupação e povoamento das terras à margem direita do Pavuna, que faziam divisa com a Freguesia de Irajá, foram ocupadas pelos mesmos colonizadores que ocuparam tanto a margem direita como a esquerda do rio.

Assim, durante séculos, a sede da freguesia eclesiástica de Meriti foi o solo da Pavuna. Os fazendeiros da Pavuna eram donos de terras também no território onde hoje se situa a Cidade de São João de Meriti. O exemplo mais concreto foi a do Sr. Antonio Tavares Guerra e herdeiros, donos das Fazendas da Conceição, na Pavuna, e do Carrapato, no Centro de São João de Meriti.

Na virada do século XIX para o século XX, travaram-se grandes polêmicas a respeito do caso. Na defesa de nossos interesses estavam os meritienses, Cel. Eliseu de Alvarenga Freire (funcionário do Estado) e o 1º Juiz de Paz e Presidente da Comissão Censitária de Meriti, o Dr. Pedro Telles Barreto de Menezes (tinha sido também, Vereador e presidente da Câmara de Iguassú). No exercício e na defesa dos interesses do Distrito Federal, estavam todos os grandes técnicos, funcionários públicos graduados, geógrafos, historiadores e intelectuais diversos do Distrito Federal. Toda esta polêmica foi muito bem descrita por Noronha Santos em sua obra Memória acerca dos limites do Distrito Federal com o Estado do Rio de Janeiro, obra impressa pela gráfica da Imprensa Nacional, em 1919. Noronha era um funcionário graduado do Distrito Federal e recebeu a incumbência do Prefeito, à época, para vasculhar arquivos do Rio de Janeiro, cartas topográficas, geográficas, atlas, plantas em geral, manuscritos, atas de eleições, memórias, ofícios, pareceres, almanaques, anuários, boletins, diários, jornais, recenseamentos, leis, decretos, relatórios, revistas e uma vasta bibliografia específica sobre a Baixada Fluminense e chegar à conclusão das pretensões do Estado do Rio. Ao final da obra, Noronha emite a seguinte conclusão:
“Ahi ficam todas as provas a favor do Distrito Federal e que demonstram a sociedade o direito da Capital da República a jurisdição plena e pacífica das terras que estão nas linhas de suas divisas. O Distrito não se arreceia de discutir a questão de limites, posta de novo em foco pelo Município de Iguassú, sob o patrocínio do Estado do Rio de Janeiro. Nenhum acordo, porém, será possível entabular-se, sem o reconhecimento por parte do Estado do Rio de Janeiro dos direitos insofismáveis do Distrito Federal à posse das terras que tem sido causa da contenda. O Distrito, que conta com os mais minuciosos elementos de defesa, com a tradição histórica fartamente documentada e garantidora da sua causa. Fora disto, não haverá um juiz, uma só consciência honesta que seja capaz, diante da prova robusta que está arrolada e comentada pelo Distrito Federal, de negar-lhe o direito indiscutível na antiga questão, sempre provocada pelo Estado do Rio de Janeiro...”.

As posições de convencimento de Noronha Santos, em grande parte, estão contidas nas crônicas do Dr. Vieira Fazenda, que veementemente defendeu a posse por estas terras pelo Distrito Federal, levando em conta que a Vila de Iguassú pouquíssimas obras fez nestas terras, deixando sempre a cargo da Corte. Como exemplo, o Canal da Pavuna, construído pela Câmara da Cidade do Rio de Janeiro, de 1829/1833, com 3.950 metros de comprimento e 20 de largura. Noronha Santos transcreve uma visita a Pavuna na década de 1910, que assim diz: “Pavuna é um lugar que começa a prosperar, e é este talvez o motivo que torna insistente a reclamação do município de Iguassú, procurando assenhorear-se de extensas e fertilíssimas terras... Enquanto Pavuna prospera, Merity está muito longe de ser um logar aprazível”.

Mais adiante ele busca ouvir a população que afirma:
“... os moradores são em sua grande maioria, partidários da causa que com tanto calor sustenta o Distrito Federal. Todos desejam que a capital da República exerça, por seu governo municipal, o mais intenso trabalho em prol dos habitantes do florescente povoado que fica à margem direita do rio Pavuna. Se houvesse um plebiscito, disse-nos um velho morador do local - o Estado do Rio não lograria talvez obter três votos favoráveis à sua pretensão...”.

Diante das infinitas posições favoráveis ao Distrito Federal, as defesas históricas dos meritienses Cel. Elizeu de Alvarenga Freire e do Juiz de Paz Pedro Telles Barreto de Menezes, não lograram êxito. Frustraram, assim, as intenções de São João de Meriti como 4º Distrito de Iguassú de ter em seu território as terras da Pavuna, ficando como seu limite o histórico rio Meriti com o seu afluente o Pavuna na sua margem esquerda.

Fica aqui uma importante lição que vem do livro O Pequeno Príncipe, que nos diz: “Tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Iguassú não fez por merecer tão ricas terras. No socorro, algumas vozes de Meriti apenas ecoaram. Onde estavam naquele momento os expoentes da vida pública e da intelectualidade iguassuana?. A história é testemunha.


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