IPAHB

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Quarta-Feira, 10 de Março de 2010.

São João de Meriti


- A Saga de Manoel Congo

- Tupinambás - O Massacre de um Povo

- Ocupações Indígenas na Baía de Guanabara

- Ah! Essas Mulheres


Tupinambás - O Massacre de um Povo
Gênesis Torres
Professor, Pesquisador e Presidente do IPAHB

Após um ano do tratado, recomeçou a preagem de índios para o trabalho escravo. Os portugueses violavam a paz sem protesto dos Jesuítas; o sonho não pôde ser realizado.

“Usando os mais requintados processos de crueldade, os portugueses conseguiram aterrorizar os próprios índios, já habituados a toda espécie de luta. Somente em pensar nos castigos inenarráveis que se infligiam aos prisioneiros, muitos índios se submetiam ao jugo, vencidos pelo Terror”.

Em São Vicente, as aldeias eram atacadas e desapareciam na voragem das chamas. Cadáveres nas selvas e nas praias atestavam o barbarismo do colonizador.

Reunindo o grande conselho, os Tamoios resolveram responder à altura aos ataques dos “PEROS”. Estava declarada a guerra.

Chegando de Lisboa com uma frota de galeões armados e municiados, Estácio de Sá entra na Baía de Guanabara com cerca de 1.500 soldados e índios Temiminós, que Araribóia trouxe do Espírito Santo. Ele conhecia a capacidade de Aimberê, o chefe das tribos que formavam os Tamoios. Por isso, levaram um ano se preparando para o ataque final, durante o qual peças de bronze eram transportadas para a terra em busca de pontos estratégicos.

Houve o primeiro encontro com a superioridade em armas dos portugueses. Aimberê, com 1500 guerreiros e 160 canoas, não conseguiu resistir às bocas de fogo que faziam saltar com um tiro vários barcos de uma só vez, obrigando-os a recuarem.

Desembarcando em algumas praias, os portugueses passaram a incendiar aldeias, aprisionando famílias e destruindo embarcações. Entretanto, Aimberê resistia.

Informado por Anchieta, Mem de Sá vem para o Rio de Janeiro trazendo reforços, que aqui chegaram em 18 de janeiro de 1567, compostos de três galeões vindos de Lisboa comandados por Cristóvão de Barros, dois navios de guerra e seis caravelões.

Aimberê, sentindo a gravidade da situação, reúne o conselho e pede aos franceses que partam para salvar suas vidas, principalmente seu genro Ernesto. Este, em nome dos patrícios, recusam-se e dizem que ficarão ao lado dos companheiros, lutando até morrer como um Tamoio.

Era o dia 20 de janeiro. Centenas de portugueses e Términos, comandados por Araribóia foram ao encontro dos bravos Tamoios. Milhares de flechas cruzavam o céu, ao rimbombar dos canhões e tiros de escopeta. Os combates corpo a corpo deixaram as águas da Guanabara tingidas de sangue. Na praia, jaziam corpos de índios e portugueses que as ondas teimavam em sepultar.

O Padre José de Anchieta na sua “DE GESTIS A MEM DE SÁ”, conta esta batalha desigual, cantando glórias à covardia do opressor:
“As hordas selvagens contratacam de cima do monte, levantam o grito de guerra que reboa na altura e vibram fremindo os arcos: furor guerreiro os sacode e logo despejam do alto uma chuva de flechas, cobrindo os cumes verdejantes como uma nuvem”.

Assim, quando o vento sul flagela, às vezes, os campos, o granizo despoja dos seus belos cachos as vides e denso saltita sobre os tetos tragicamente soando.

Há um frémito de horror nas matas. Os inimigos resistem com denodo aos assaltantes, rolando pedras enormes, mas aos esquadrões de Cristo nem flechas sem pedras conseguem parar; o soldado, em fileiras cerradas, se arroja teimoso, vence as escarpas, despede certeiro dardos de arremesso. Chegam às mãos: foge o selvagem. Persegue-o, alcança-o, mete-lhe a espada, vara-lhe o peito. A uns a lança de ponta aguda atravessa a ilharga, abrindo à luz do sol, as profundas cavernas da vida e levando à morte aos membros pela larga ferida.

Outros tombam, fendida a fronte a golpes de espada, a outros trespassa o coração a seta ligeira.

E se extasia diante de tanta destruição, enaltecendo o “gesto heróico” do invasor, ao referir-se ao assassinato de famílias inteiras ao calor do fogo, em que 160 aldeias foram queimadas à margem da Guanabara, deixando registrado para a posteridade, que a missão “EVANGELIZADORA” da Igreja era a espada:
“Pelo solo, escorre negro sangue, as matas se encharcam da muita sangueira. Aqui e ali, corpos nus e sem vida jazem nos caminhos e fundos recessos dos bosques”.

Quem poderá contar os gestos heróicos do chefe à frente dos soldados na imensa mata? CENTO E SESSENTA FORAM AS ALDEIAS INCENDIADAS, mil casas arruinadas pela chama devoradora, assolados os campos, com suas riquezas, PASSADAS TUDO AO FIO DA ESPADA! Choraram a perda dos pais os filhos queridos, carpiram as mães inconsoláveis a perda dos filhos, a esposa, agora viúva, chora a morte do esposo.

Morreram muitos à míngua perdidos na selva, e, fato horroroso! Com as próprias mãos, pais desumanos mataram os filhos, que pelos bosques os seguiam chorando, para que o choro deles não atraísse o inimigo.

O terror se estendeu, e estendeu-se o luto profundo: tudo eram lágrimas, prantos e espectros de morte; já há quinze dias, a estrela da manhã, ressurgindo do fundo oceano à frente do carro do sol resplendente, contemplava NOSSO EXÉRCITO A PERCORRER DENSAS MATAS, INCENDIAR CASAS, TALAR CAMPOS, MATAR INIMIGOS.

Após 48 horas de combate, estava arrasado o último reduto dos Tamoios. Seus chefes estavam mortos. Aimberê, Igaraçu, Pindobuçu e seu filho Parabuçu, o francês Ernesto e sua mulher Guaraciaba tiveram suas cabeças cortadas e espetadas em estacas, porque “Daquela raça maldita de Tamoios nada haveria de subsistir nas terras conquistadas pelos portugueses”.

O principal comandante do massacre, Estácio de Sá, foi ferido naquele dia 20 de janeiro, por uma flecha, e morreria um mês depois. Seus ossos foram exumados e se encontram hoje na Igreja de São Sebastião (dos Capuchinhos), no Rio de Janeiro.

Quanto aos ossos de Aimberê, diz Aylton Quintiliano, quem os descobriria nos corpos degolados, massacrados, mutilados e esquartejados, por colonizadores “cristãos” da estirpe dos Mem de Sá, Estácio, Anchieta, Pedro Leitão e traidores como Araribóia?
“Os ossos de Aimberê ficaram sepultados no coração e na memória de todos os verdadeiros patriotas que amam esta terra maravilhosa”.



Bibliografia

ANCHIETA, José de - “De Gestis Mendi de Sá”
Arquivo Nacional - RJ - 1958

BARBOZA MELO, José - “História das Lutas do Povo Brasileiro”
Editora Leitura - RJ.

BARROS, Ney Alberto Gonçalves de - “Baixada 500 anos”
Revista Memória - nº 06 - RJ - 1999

DIAS, Ondemar - “O Pré-Cerâmico no Rio de Janeiro”
Catálogo de Arqueologia - CEA - ETP - IAB
Rio de Janeiro.

QUINTILIANO, Aylton - “A Guerra dos Tamoios”
Reper Editora - RJ.


Ocupações Indígenas na Baía de Guanabara - Primeiros Ocupantes
Guilherme Peres
Pesquisador e membro do IPAHB

Os rios que formam a grande bacia hidrográfica da Baixada Fluminense nascem em sua maioria nos contrafortes da Serra do Mar e do Gericinó.

Nas partes superiores, brotam em intensos declives torrentes, alguns encachoeirados como o Sarapuí, avolumando-se aos poucos no encontro com outros cursos, buscando os leitos definitivos ao receber seus afluentes e coleando por entre morrotes e brejais, em busca da Baía.

Região ideal para a intensa ocupação pré-histórica desse litoral, continha em suas águas abundância de mamíferos marinhos (golfinhos e baleias), peixes e moluscos, bases de subsistência dos primeiros ocupantes.

Iniciados entre 8.000 e 7.000 anos por pescadores/coletores, os ocupantes deste recôncavo formaram a origem de vários aldeamentos indígenas encontrados pelos navegadores, quando aqui aportaram no início do século XVI.

Segundo Elmo S. Amador, “a indústria lítica era pouco expressiva, constituída, principalmente, por artefatos picoteados e semipolidos, lâminas de machado, quebra-coquinhos e percurtores, com raros artefatos sobre lascas, ossos e conchas”.

As populações que habitavam essas áreas costeiras eram agrupadas em macrobandos, provavelmente sedentários ou semi-sedentários.

O último estágio dessa ocupação varia entre 2.500 e 1.500 anos, representado por grupos que faziam seus assentamentos sobre restingas, dunas litorâneas ou próximas às praias abertas, tendo por economia de subsistência a pesca, a caça e a coleta de moluscos. Praticavam também a coleta de sementes e alguma agricultura.

O sepultamento, feito em posição fetal, ocupava pequenas covas cônicas.

Entretanto, segundo o prof. Ondemar Dias, pouco sabemos a respeito desses pioneiros.

“No interior fluminense só muito recentemente foram descobertos vestígios dos seus acampamentos. Pontas de flecha de quartzo hialino e leitoso, lascas e raspadores do mesmo material atestam esta antiga presença”.

No litoral são encontrados vestígios maiores, constituídos pelos restos do que foram os grandes sambaquis, na sua esmagadora maioria destruídos para fabricação de cal, desde os tempos coloniais. Poucos são os que restam, fornecendo dados elucidativos, através da pesquisa arqueológica.

Estes sambaquis podem ser agrupados em dois tipos. Os mais antigos, anteriores às modificações climatológicas, do “ótimo climático”, com idade em redor dos 6.000 anos e os recentes, posteriores a estas alterações. No primeiro caso, a quantidade de conchas é maior; no segundo caso, espessas camadas úmidas demonstram maior diversificação econômica.

Grupos ceramistas iniciaram esta fase cultural, na Era Cristã, e dispersos em grupos fabricaram vasos e recipientes de determinados padrões que tipificam os vários estágios culturais dessa ocupação.

“Até o momento sabe-se que as primeiras comunidades cerâmicas estão filiadas à Tradição denominada Una, com três fases culturais componentes (Una, Mucuri e Piunhi). Através de datações obtidas pelo método do C-14, sabe-se que já ao redor do século VI da nossa Era, grupos tribais Mucuri se fixaram no baixo curso do rio Paraíba. Provavelmente, pela mesma época, mais para o litoral, outros grupos da fase Una ocupavam, inclusive, locais anteriormente habitados pelos Itaipu. Em S. Pedro da Aldeia foi possível localizar-se sítio com esta superposição”.

Em 1º de janeiro de 1502, três naus cruzaram a barra do Rio de Janeiro, comandadas por Gonçalo Coelho e, pilotando a nau capitânea, Américo Vespúcio. Uma exuberante floresta tropical emoldurava a costa, vales, montanhas. Fontes da mais pura água doce jorravam em cascatas das colinas, abraçando neste celeiro centenas de tribos indígenas que salpicavam em torno da Baía.

O encontro inicial com os Tupinambás foi amistoso. Abasteceram-se de víveres deixando “algumas galinhas e degredados”, seguindo viagem para o Sul.

Até a transformação do Brasil em Capitanias Hereditárias, os navegadores franceses foram os mais freqüentes em visitar as costas do Rio de Janeiro, não estabelecendo feitorias, como os portugueses, mas se infiltrando entre as aldeias indígenas e praticando o escambo, provavelmente partindo daí as relações de amizade que fizeram com que grande parte dessas tribos viesse a defendê-los.

“Os povos que aqui viviam transmitiam o que sabiam, apenas através da palavra falada, própria da memória oral. Não deixaram, portanto, documentos escritos de identidade. Não tiveram oportunidade de se apresentar. Poucas vezes disseram como se autodenominavam. Quando o fizeram, nem sempre foram compreendidos”.

Os primeiros colonizadores portugueses, franceses e espanhóis tentaram, em alguns casos, identificar o nome próprio de cada povo, criando, às vezes, uma grande confusão, porque quase sempre desconheciam as línguas faladas pelos índios.

Escrevendo o mesmo nome com grafias diferentes, os navegantes escritores, que visitaram este povo, deixaram anotados para a história registros confusos quanto ao grau de parentesco das diversas línguas que provinham do mesmo tronco. Podemos afirmar, entretanto, que no território do Rio de Janeiro, seus primitivos habitantes falavam vinte idiomas diferentes, pertencentes a quatro famílias lingüísticas.

“A família Tupi, ou Tupi-guarani, compreendia mais de uma centena de línguas, faladas em áreas que pertencem atualmente ao Brasil e a alguns países hispano-americanos. Pelo menos cinco delas eram faladas no Rio de Janeiro, pelos seguintes povos:
- Tupinambá: habitantes das zonas de lagunas e enseadas do litoral, da Guanabara e de Cabo Frio até Angra dos Reis;
- Temiminó ou Maracajá: localizados também na Baía de Guanabara;
- Tupinikin ou Margaya: no litoral norte fluminense e Espírito Santo;
- Ararape ou Arary: no vale do Paraíba do Sul”.

De todas as línguas faladas no extenso território da costa Atlântica, o Tupinambá era o que reunia o maior número lingüístico, sendo o mais assimilado por franceses e portugueses. 46% dos nomes populares de peixes e 35% dos nomes de aves são oriundos só do Tupinambá.

“Da mesma origem são os nomes de muitos lugares e até mesmo de bairros atuais do Rio de Janeiro, que conservaram as denominações das antigas aldeias como Guanabara (baía semelhante a um rio), Niterói (baía sinuosa), Iguaçu (rio grande), Paraíba (rio extenso de difícil navegação), Pavuna (lugar atoladiço), Irajá (cuia de mel), Icaraí (água clara) e tantos outros como Ipanema, Sepetiba, Mangaratiba, Acari, Itaguaí etc.”

Essas palavras indígenas, integradas no nosso vocabulário do dia-a-dia, são uma contribuição valiosa à memória de nosso passado. Memória viva de um povo que teve a sua cultura esmagada sob o jugo do colonizador, por ter preferido a morte no campo de batalha, a viver como escravo e trair sua gente.

ALDEAMENTOS



“No momento da chegada dos primeiros europeus, os índios viviam em aldeias ou tabas espalhadas por todo o território do Rio de Janeiro. A aldeia era a maior unidade política das sociedades indígenas. Cada uma delas tinha autonomia e reconhecia como autoridade maior o seu chefe, tuxaua, morubixaba ou cacique”.

Para algumas áreas, as informações da época são mais precisas. O cosmógrafo francês André Thevet, por exemplo, elaborou um mapa da Ilha do Governador, onde aparecem, só aí, cerca de 36 tabas. Era nesta ilha que ficavam as aldeias Paranapucuhy, Pindó-usú, Koruké, Pirayijú, Coranguá. Outro cronista francês, Jean de Léry, num levantamento parcial, encontrou em torno da Baía de Guanabara um total de 32 aldeias tupis entre 1550 e 1560. Depois, novas listas, também parciais, foram feitas por missionários e cronistas portugueses, acrescentando outras povoações.

O primeiro nome da lista de Léry é a aldeia Kariók ou Karióg, situada no sopé do morro da Glória, na foz do rio Carioca, o rio sagrado dos Tamoios que tinha, além dessa, uma segunda foz, mais caudalosa, na praia do Flamengo, onde se localizava outra aldeia, chamada Urusúmirim ou Abruçumirim.

Próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas existia uma aldeia chamada Kariane. Distribuídas pelos morros de Santa Tereza e Santo Antônio, as aldeias de Katiné, Kiriri, Anaraú e Purumuré. Na região ocupada hoje pelos subúrbios ao longo da Central do Brasil existiam dezenas de aldeias, entre as quais Pavuna, Irajá Catiú, Savigahy, Taly.

Eram centenas e centenas de tabas ao longo de todo o território, habitadas por um número incalculável de índios. Segundo os relatos da época, a população de cada aldeia tupinambá variava entre 500 e 3.000 índios.

COMO VIVIAM



Habitantes do litoral, a família Tupi contribuiu categoricamente na formação étnica do povo Fluminense. Nas crônicas de alguns viajantes, vamos encontrar a descrição de sua vida diária, agricultura, navegação, utensílios, a maneira de caçar, pescar, rituais etc.

Essas aldeias, em geral, estavam localizadas em terras férteis, perto da floresta e do rio, para facilitar a agricultura, a caça e a pesca. Cultivavam, em grandes roças comunitárias, mandioca, milho, abóbora, feijão, amendoim, tabaco, pimenta e muitas árvores frutíferas. Plantavam e teciam o algodão, com o qual faziam suas redes de dormir. Fabricavam cestas de cipó, panelas e vasos de barro, machados de pedra, facas de casca de tartaruga, agulhas de espinhas de peixe, e muitos instrumentos musicais de sopro e percussão.

Segundo os depoimentos dos missionários, eram povos alegres, apaixonados pela música e pela dança. Pintavam o corpo e enfeitavam-se com colares feitos de conchas marinhas, penas coloridas de aves e outros produtos.

“Todas essas atividades só podiam ser realizadas porque os povos Tupis dominavam um vasto campo de conhecimentos. Os antigos Tupinambás, por exemplo, tinham noções de astronomia e podiam prever chuvas e as grandes marés, observando as estrelas, a lua e o sol. Na área da ecologia, conheciam as relações entre os seres vivos e o meio ambiente, os hábitos dos animais, os locais que freqüentavam, as trilhas que percorriam e a época de amadurecimento dos frutos que lhes serviam de alimento. Acumularam saberes sobre a propriedade medicinal dos vegetais”.


Ahhh!... Essas Mulheres...
Gênesis Tôrres
Professor de História, Pesquisador e membro do IPAHB

Chega ao fim mais um século. Poderia ter sido como todos os outros, não fosse a grande libertação e participação das mulheres no cotidiano de suas e de nossas vidas. O século XX será lembrado no próximo século como o das conquistas femininas, das transformações no comportamento diante da libido e da independência social, econômica e política.

Nesta oportunidade, gostaria de lembrar alguns fatos ocorridos nas terras de Meriti ao longo destes 500 anos, no que toca a participação das mulheres no dia-a-dia da sociedade. Revendo o relatório do Marquês de Lavradio de 1769/79, quanto às atividades econômicas e suas unidades produtoras, encontramos surpreendentemente o nome das seguintes mulheres proprietárias: Na Freguesia de São João Baptista de Meriti havia o engenho de Gericinó, que pertencia a D. Maria Andrade. Os rios que banham Meriti possuíam 14 portos. No Meriti, o porto da Valla, que pertencia a Catharina Maria de Mendonça, com 01 barco, e o de Anna Ferreira, com 01 barco. No Sarapuhi, o porto de D. Antonia, com 01 barco, o de D.Maria das Neves, com 01 barco, e o de D. Anna, com 03 barcos.

Ao final do século XIX e início deste, vamos encontrar como proprietárias de terras nas áreas centrais do hoje 1º Distrito as senhoras Maria Peixoto (loteou suas terras e na cota municipal ficou reservado o terreno que posteriormente serviu para construção do Hospital de Caridade) e outras como D. Lara e D. Maria Lucina, D. Maria Gorda, proprietária de terras em São Mateus e Vila União, e das terras de Ana Lima, em São Mateus.

Neste século, lá pelas primeiras décadas, merecem destaque figuras como da Professora e Advogada Nazaré Sutinga que em 1930, em uma reunião social, faz um veemente discurso lançando o nome de Getúlio de Moura a vereador na Câmara de Iguaçu, contra o Interventor Sebastião de Arruda Negreiros.

Há que se destacar na Educação as Professoras Amélia Plalon de Carvalho, Alzira dos Santos, Judith de Castro, Francisca Jeremias (mãe de Dr. Alberto Jeremias), Gesuína Maciel, Francisca Cezar, descendente do Major Augusto Cezar, e muitas outras.

Na cultura, foram incentivadoras do teatro: Áurea Paiva, que tornou-se grande estrela no Rio, Guiomar Esteves da Silva e no piano a Prof. Mércia Diniz de Brito.

Como mãe e exemplar educadora a senhora Alice Rosa, fundadora da lª Igreja Batista de Meriti e mãe do Dr. Eliasar Rosa e do Juiz de Direito Elieser Rosa.

Outro grupo de influentes mulheres que pelas suas atuações deixaram traços de fortes personalidades e caráter foram: Olívia Bitencourt, Rosali Farrula - esta, esposa do Dr Rubens Farrula, que emprestou seu nome ao bairro onde residiu por longos anos, a Vila Rosali. Lembramos também de D. Joaquina Telles Rocha Farias, filha do Comendador Pedro Antonio Telles Barreto de Menezes, esposa do eminente médico e Prof. Dr. Rocha Farias.

Naqueles tempos da primeira metade do século que ora terminavam, em que Meriti pouca ou nenhuma assistência médica existia, a figura da abnegada de D. Mariana, moradora de Engenheiro Berford, de família abastada, atuou por longos anos como parteira. Sua atuação foi de vital importância nas comunidades carentes no momento do nascimento. E por falar em nascimento, lembramos que o primeiro registro de nascimento feito no distrito de Meriti foi de uma menina chamada Mariana Luiza Souza, em 18 de Janeiro de 1889.

Com a emancipação em 1947, após longo período da ditadura Vargas, notabilizamos a participação das mulheres na vida pública. Acrescentamos abaixo aquelas que lograram êxito como as vereadoras:
- Carmem Bastos e Dauta Joubert Barreto, de 1947/50: ambas assumiram a bandeira do Partido Comunista como luta contra as injustiças sociais;
- Presciliana Muniz da Rosa, Sara Marins Fontes D’Avila e Antonieta Colluci Médici, de 1951/55: viveram seus mandatos num dos mais difíceis momentos de nossa história política, com a Câmara dividida, onde os interesses pessoais estavam acima dos da comunidade. No entanto, foram exemplos de luta em prol da justiça social;
- Maria Lúcia D’Ávila Pizzolante: formada em Direito e em Línguas Neolatinas pela Sorbone (França). De 71/73, foi Presidente da Câmara Municipal, tornou-se mulher guerreira e que portando um chicote lutou contra a cultura da corrupção. Hoje, dedica-se ao jornalismo, dirige a Revista Persona, em Brasília, e empunha a permanente bandeira do feminismo, tendo sido membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e recebeu de Portugal a comenda da Ordem do Mérito, possuindo vários livros publicados;
- Gabriela Andrade Figueira, de 71/73: filha do emancipador Deputado Lucas de A. Figueira, mostrou-se uma mulher experiente e alto espírito público;
- Clévia Medeiros, de 1997/2000;
- Tendo ainda atuado como Vice-Prefeita a Prof. Alzira dos Santos Soares, de 1967/70: mulher de grande espírito público e conciliadora dos interesses municipais.

Ao final deste século, destacamos a figura emérita de Almerinda de Carvalho, pois, ao longo de sua vida tem sido um exemplo de luta pelos interesses dos munícipes, como fundadora e Presidente da Fundação de Assistência Comunitária. Vem desenvolvendo um grandioso trabalho social e, merecidamente, foi eleita Deputada Federal, com o reconhecido apoio de toda comunidade meritiense. Sua votação foi a maior registrada até o momento. É a primeira mulher a representar o nosso município em Brasília. Como já era de se esperar, seu trabalho é exemplar, está dignificando, honrando e exaltando o nome das mulheres de nossa terra, sem descuidar do seu importante papel como mulher e mãe.

Diante dessas grandezas, a constelação de Meriti se orgulha em ter no chão tantas estrelas, que ao longo dos séculos emprestaram brilho à luta em fazer desta terra um lugar de amor e justiça.


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