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Segunda-Feira, 06 de Setembro de 2010.

São João de Meriti


Pensando o espaço urbano
Genesis Torres
Professor e membro do IPAHB

A trajetória de nosso Município não foge à regra da nação brasileira, enquanto colônia Portuguesa, face aos aspectos que lhes são comuns, tais como a presença da cana-de-açúcar, da agricultura de subsistência e no século passado a laranja, semeada em nosso solo durante os séculos XVI ao XX. No século passado, na avalanche das grandes transformações ocorridas na sociedade, permitiu-se o seu povoamento irregular e permanente que lhe confere hoje a condição de maior densidade demográfica brasileira. Tal condição tem suas origens no final do século XIX quando os trilhos da linha auxiliar da Estrada de Ferro Central do Brasil atingiram o Município. A expansão urbanística do Município do Rio de Janeiro provocou o ativamento dos centros urbanos periféricos e o preço convidativo dos terrenos locais atraiu um grande contingente operário que aqui se fixou.
Essa atração se acentuou na medida em que os transportes rodo-ferroviários, ao modernizarem-se, possibilitaram viagens mais rápidas ao Município do Rio de Janeiro.
Nosso Município tem em si circunscritos todos os aspectos inerentes à realidade brasileira, isso ocorre exatamente por ter sido e ser nossa terra o espaço adequado que sempre esteve aberto a todos aqueles que buscam situar-se no solo nacional e que vislumbraram aqui, o local que lhes acolheria.
A visão da multidão que às primeiras horas da manhã, sempre sofrida, mas, jamais desesperançada encaminha-se aos transportes que a levará a seus locais de trabalho nos possibilita refletir sobre o recente processo de urbanização que, no Brasil, resultou em cidades marcadas por uma grave crise. Por um lado, o crescimento urbano trouxe maior diversificação de atividades e portanto maior dinamismo da economia em cada cidade. Mas, ao mesmo tempo, este crescimento gerou um espaço urbano segregado, onde a “cidade moderna”, provida de bens e serviços, contrasta enormemente com a “cidade espoliada”, onde vive a maior parte da população, sujeita à precariedade e injustiças – são as péssimas condições de habitação, o trânsito congestionado e os ônibus superlotados, a poluição, a falta de serviços de saúde, de segurança, educação, etc.
Deste quadro, que traduz o desrespeito aos direitos de cidadania, resulta freqüentemente a violência sobre população, o sítio urbano, a natureza e a história da cidade. É um processo que tende a reforçar o isolamento de cada habitante, descaracterizando a qualidade fundamental da cidade: pólis, reunião dos cidadãos, cidadanias, democracia.
Por trás deste aparente “caos” urbano o que existe é a idéia da cidade como fonte de lucro. O padrão de crescimento e de gestão de nossas cidades – marcado pela mercantilização do solo urbano, do transporte e dos equipamentos e serviços municipais – tornou-se um negócio vantajoso para alguns poucos. São grupos econômicos e políticos que, através de instrumentos como a cooptação ou a corrupção, influem nos governos municipais para garantir que este padrão de crescimento tenha continuidade. Com isto, a dimensão pública das políticas sociais é quase esquecida, a qualidade ambiental se deteriora, e as necessidades da população são minimamente atendidas.
Neste quadro de carências extremas, a organização e a mobilização de setores populares desde meados dos anos 70 introduziram um outro ator político na disputa pela cidade e por seus recursos. A política local torna-se mais complexa e se insere no quadro da democratização da sociedade, onde afloram as demandas sociais reprimidas e abrem-se espaços para experiências de participação.
Por estas razões, nos últimos anos vem se dando uma revalorização da questão local. A política municipal tem que alterar suas estratégias, pois surgem novos jogos de interesses. Uma nova prática de gestão municipal se impõe, para substituir a total centralização decisória anterior, suas práticas tradicionais de clientelismo e a exclusão dos principais beneficiários dos serviços públicos.
Hoje vemos afirmar-se um processo de reorientação da gestão municipal. A Constituição de 1988, acolhendo as pressões populares, abre dois caminhos. A descentralização dos poderes decisórios, passando do governo federal para os municípios recursos e encargos da administração pública (por exemplo: saúde e educação). E a democratização do poder local.
Mas a descentralização não leva por si só à democratização.
A democratização dos governos locais depende da presença ativa dos organismos de representação dos interesses da sociedade civil, participando do processo decisório na gestão municipal.
E que instrumentos poderão garantir a democratização?
Por um lado, a capacitação da sociedade civil para participar das decisões de políticas públicas. E isto não só a partir da iniciativa dos cidadãos enquanto indivíduos, mas a partir das suas entidades representativas, da pressão coletiva.
Por outro lado, a partir da inscrição e garantia dos seus direitos nas Constituições estaduais, nas Novas Leis Orgânicas Municipais, nos Planos Diretores e nos Conselhos.
A dificuldade maior é o fato de uma geração inteira desconhecer os instrumentos de participação democrática e seu manejo: como construir relações entre as entidades e os órgãos responsável pela gestão municipal?
A atuação do poder público municipal pode em muito contribuir neste campo. Uma gestão democrática da cidade deve estar atenta para as questões de organização do espaço.
A cidade que conhecemos, acima descrita, precisa ser transformada. Uma ação que comece a mudar este quadro, hoje mais do que oportuna, é urgente: trata-se de promover uma reforma urbana que priorize a função social do solo urbano e o valor coletivo da cidade, e que garanta a democratização da gestão municipal.
Para isso é preciso dotar a administração pública de instrumentos adequados: não somente os recursos financeiros, mas também novos instrumentos legais e iniciativas legislativas que permitam enfrentar a desorganização urbana e permita a implantação de programas e projetos públicos que valorizem a qualidade de vida e do ambiente. Que agilizem o processo de regularização fundiária de áreas ocupadas por posseiros urbanos e que se elabore uma plano habitacional que contemple as populações marginalizadas. Que possibilitem à administração pública prover a cidade de um sistema de saneamento, de educação, de saúde, de habitação, de transporte público eficiente e barato. E, finalmente, que assegure aos cidadãos a participação na gestão democratizada da cidade.
Na evolução do processo político de nosso Município, esta cidade teve saldos positivos e negativos. Há de se destacar a atuação de uma massa de trabalhadores, que a despeito de suas origens simples, aqui se estabeleceu. Vindos dos mais distantes recantos deste país e de outras partes do mundo. É gente, homens e mulheres, que na busca de espaço na difícil sobrevivência imposta pela vida urbana, venceu e hoje são empresários, industriais, professores, médicos, advogados, engenheiros, artistas, políticos, dentistas, farmacêuticos, comerciantes, militares, religiosos, pedreiros, marceneiro, motoristas, biscateiros, ferramenteiros, serventes, etc.
Avançar, avançar, avançar mesmo que hajam pedras no caminho...


       
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