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Para quem acompanha o processo eleitoral brasileiro, já deve ter percebido nestes últimos 20 anos que as eleições são um exercício da democracia que nem sempre tem refletido a lógica que se espera. A lógica eleitoral é sempre uma caixa de surpresa e cheia de armadilhas, que não se explica pelas leis matemáticas. Sua compreensão não é tarefa apenas para os sociólogos, mas também os psicólogos. O comportamento social das massas tem algo que viaja no mundo do inconsciente coletivo. A urna tem um recado quase sempre imperceptível aos sentidos humanos, é algo para semideuses, na sua eterna busca para interpretar a vontade humana. Para os mais experientes na política brasileira, a eleição depende de inúmeros fatores que conjugados, podem dar um resultado favorável a um determinado candidato ou vice-versa.
Para nós, cada eleição tem uma característica e não poderia ser diferente, afinal, as realidades históricas demonstram que o mundo não é algo estático, amorfo e indiferente. Nosso universo social é dinâmico e está em constante movimento, a sociedade avança não pelos que estão a favor, mas da eterna luta dos contrários. O processo social vive uma ebulição que sempre aflora no momento em que seu destino é colocado diante de questões onde os interesses individuais e coletivos estão em jogo.
Nosso município completou nesta virada de século 53 anos de emancipação, tendo exercitado ininterruptamente o processo eleitoral. Nossa primeira Câmara elegera uma Vereadora, sete vereadores do PSD, dois do PTB, dois da UDN e um do PST. O primeiro prefeito foi eleito em 1947 pelo PSD - era o médico José dos Campos Manhães. Ao sair da Prefeitura em 1950, não deixou nenhum herdeiro político, pelo contrário, deixou a cidade sem uma liderança e desorganizada politicamente, o que provocou um conjunto de crises políticas, gerando fatos inéditos como a existência de duas câmaras e sete prefeitos.
Os períodos que se seguiram, a partir de 1955, demonstraram que cada prefeito que assumia o executivo não estava alinhado com o seu antecessor e não tinha compromissos em continuar sua obra ou seus projetos. Isto provocava um descompasso no planejamento urbano. A população crescendo em ritmo acelerado, aumentava a demanda por serviços públicos.
Miguel Archanjo não sucedeu J. Campos Manhães, que teve como candidato Dulcimar Garcia. Domingos Correa nada tinha com Miguel Archanjo. O sucessor de Domingos Correa tinha como candidato Virgílio Azambuja e saiu vencedor Ário Theodoro deixou a desejar e foi substituído pelo próprio Domingos Correa. O sucessor de Domingos foi José de Amorim Pereira, candidato natural de consenso do MDB, ao sair do Executivo não elegeu seu substituto natural Valdílio Villas Bôas, vencedor pela ARENA, porém perdedor pelo MDB, que lançou três candidatos em sublegendas e a soma deles deu vitória ao mais votado, o Prof. Alayr Moreira Dias. Tinha como seu candidato nas eleições de 1972 Abdon Gonçalves. No entanto, saiu vencedor do pleito Denoziro Afonso. O substituto de Denoziro foi Celestino Cabral que, dada a situação de desgaste de seu governo, lançou um candidato desconhecido e ainda muito jovem.
Veio a abertura política e Celestino se desincompatibilizava para concorrer as eleições para Deputado Estadual. Depois de cinco anos como prefeito, não conseguiu garantir um eleitorado capaz de devolver em votos sua obra na Prefeitura. Celestino melancolicamente abandona a política. No pleito de 1982, concorreram velhos políticos como José de Amorim, Alayr Moreira Dias, Jorge Assia Tanus Bedran e outros mais novos, como Mussoline Chedier e Manoel Valência Opasso. Este, por sua vez, saiu vitorioso das urnas, numa eleição complicada em que além do voto ser vinculado com o de Governador, ainda se permitia sublegenda. O PDT saiu vitorioso pois tinha dois candidatos, sendo eleito Manoel Valência Opasso.
Manoel Valência é cassado por corrupção e seu substituto na qualidade de Vice assume. Leva consigo um projeto de fazer substituto o então Dep. Carlos Correia. Vence o pleito nas eleições de 1988 seu opositor José de Amorim Pereira. Amorim, por sua vez, não elege o candidato natural, o então Deputado Federal Paulo de Almeida. Acaba vencendo o noviço Adilmar Arcênio (Mica). Mica esperava fazer seu substituto Cândido Matos (Candinho), mas acabou vencendo Antonio de Carvalho.
Antonio de Carvalho quebra esta seqüência de más administrações e desafiando a tradição, promove uma administração voltada para obras de infra-estrutura urbana e aliada a um forte apelo às questões sociais. O resultado que já era esperado - venceu as eleições em primeiro turno com 50,44 % dos votos válidos.
Os opositores de Antonio de Carvalho, no pleito de 2000, não foram somente os da terra. Seu combate político teve figuras estranhas aos interesses locais. Carlos Correia importou o governador, transformando-o em seu cabo eleitoral de luxo, levou 22,19 % dos votos. Antônio Carlos Anuda trouxe a tiracolo o prefeito Zito, e levou 16,61 % dos votos. Os demais candidatos - Cândido Matos, Domingos Freitas e Domingos Garcia -, juntos, ficaram com 10,75 % dos votos válidos.
O sucesso da administração Antonio de Carvalho foi marcado por alguns princípios, até então, esquecidos pelo homem público no exercício do poder, qual seja, o de fortalecer as esperanças e levantar a auto-estima do povo, não com discursos, mas com ações concretas. Um povo que a cada eleição perdia as esperanças em ver resolvidas questões simples, como o direito de ir e vir. Como sair ou chegar em casa, se simplesmente a sua rua não existia. Nos terrenos baixos, esgotos entupidos, valas, mato e lixo. Nas ruas altas, enormes crateras causadas pela erosão pluvial, intransitáveis e com enormes lixeiras. Em todas essas ruas, os terrenos eram desvalorizados e não se investia na melhoria da qualidade das residências. Em 50 anos de história, no universo das ruas apenas 30 % haviam recebido qualquer tipo de melhoria. O governo de Antonio de Carvalho em 3 anos fez mais do que o dobro das existentes, com uma novidade: envolveu o povo neste processo através de mutirões de concretagem. Assim, o povo sentiu-se cúmplice das melhorias, tornando-se responsável por aquilo que havia conquistado e cativado.
Estas questões refletem uma dura realidade, que não são somente de São João de Meriti, mas de toda a Baixada Fluminense. O inchaço populacional fez surgir uma massa de indivíduos desprovidos de cultura política, porém crítica, mas incapaz de discernir entre o político administrador e o político demagogo e populista. E o resultado sempre foi o de renovar a cada eleição, pensando que estaria mudando. Política ainda é a arte de governar.
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