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Terça-Feira, 06 de Janeiro de 2009.

São João de Meriti


O recado eletrônico via eleições 2002
Gênesis Tôrres
Professor de História, pesquisador e membro do IPAHB

Existem fatos sociais, econômicos e políticos que são visíveis aos nossos olhos, não necessitam de maiores explicações e análises, eles se explicam por si sós e já trazem no seu bojo todos os conteúdos que justificam suas razões. Os fatos políticos têm suas especificidades e fazem parte do conjunto dos fenômenos que compõem a superestrutura de uma sociedade. Os fenômenos políticos pretendem não ser explicáveis, eles emanam da vontade da maioria da sociedade, que manifestando seu desejo o faz, pelo menos em tese, consciente de sua responsabilidade perante os seus direitos e deveres para com a sociedade a que pertence, é o princípio de que todo poder emana do povo e em seu nome será exercido, logo não se explica, cumpre-se.
Qualquer analista político e os cidadãos mais experientes sabem que todo processo eleitoral tem como característica o de ser diferenciado, a eleição é sempre fruto de uma conjuntura, nasce e desenrola-se dentro de circunstâncias adversas. Eleição é um processo dinâmico e circunstanciado por ações nem sempre racionais onde se dá invariavelmente embates movidos mais pela emoção e menos pela razão.
No quadro eleitoral do Estado do Rio de Janeiro, aparece a seguinte estatística eleitoral divulgada pelo TRE: lº Rio de Janeiro com 4.327.481 eleitores, 2º São Gonçalo com 561.405 eleitores, 3º Duque de Caxias com 506.886 eleitores, 4º Nova Iguaçu com 453.494 eleitores, 5º Niterói com 382.994 eleitores e o 6º São João de Meriti com 320.350 eleitores.
Dos eleitores inscritos em Meriti, compareceram às urnas no dia 06 de outubro 277.686, com uma abstenção de 42.664 eleitores correspondente a 13.31%; 4.676 votaram em branco correspondendo a 1.68 %; 10.663 anularam o seu voto correspondendo a 3.83% e 262.347 votaram como cidadãos conscientes das mudanças correspondendo a 94.47% dos votos válidos. É importante destacar que esta estatística é válida para a eleição de presidente, como ela aconteceu no mesmo momento e no mesmo ato, ela serve para identificar o quantitativo de eleitores que foram às urnas.
Estes dados nos fazem lembrar de outras importantes informações e que nos servirão para complementar algumas reflexões: Excluindo a capital Rio de Janeiro, SJMeriti é o 5º colégio eleitoral e pelos dados do IBGE as pessoas residentes no município em 1991eram de 425.772, em 1996 eram de 434.323 e em 2000 apresentava 449.476, o crescimento em uma década não foi significativo comparando-se às décadas anteriores de 50, 60, 70 e 80, onde os dados de crescimento vegetativo da população eram alarmantes e cresciam numa proporção geométrica. Assim, o crescimento populacional criava uma demanda por serviços públicos básicos, o que freqüentemente deixava o processo político eleitoral à mercê do populismo inconseqüente e aliado às eleições viciadas, recheadas de corrupção de toda sorte.
O voto eletrônico inaugurou uma nova era no processo eleitoral, pois ele permitiu a altaneira expressão da vontade do cidadão e nestas questões, ele pode não saber ler e escrever, pode não conhecer mais detalhes sobre o seu candidato, pode ser induzido ao erro político, pode não compreender o quanto é difícil o jogo de palavras no emaranhado complexo mundo político com todas as suas injunções ideológicas e correntes de pensamento que norteiam a vida econômica e social, porém, uma coisa o eleitor sabe definir, é a dura realidade de sua vida. Nesta questão ele é um “expert” e só quem está desempregado, morando mal, comendo mal, vestindo mal, sabe o que pesa na hora de definir a sua vontade política. Assim, ele comparece diante daquela maquininha eletrônica e manda às “favas” todos aqueles que prometeram e não cumpriram, se não tudo, pelo menos parte de seus problemas.
Em Meriti ao abrirem as 898 urnas encontramos os seguintes recados: O eleitor repudiou alguns nomes tradicionais e com mandatos políticos. É bom lembrar que ele deu seu voto a quem reconhecidamente tem trabalho social realizado com profundidade sem o assistencialismo desmedido. Observou também, quem não foi fisiológico no exercício do mandato independentemente das convicções político- partidária ou ideológico. Valorizou quem na Assembléia Estadual e Federal buscou recursos para a cidade, que durante o mandato defendeu os interesses municipais e teve visão ampla do processo na busca de numerários, atendendo a todos os setores da sociedade - passando pela saúde, educação, o esporte, a cultura, e lazer, a habitação, o saneamento e as obras de infraestrutura urbana.
Repudiou quem sempre aparece 90 dias antes das eleições pagando umas meninas para ficarem nas esquinas com bandeirolas, camisetas, chapéus e distribuindo santinhos ou mesmo os de maiores cabedais que espalham pela cidade uma dezena de outdoor, quem emporcalha a cidade de galhardetes e santinhos, e sem escrúpulos faz uns acordos, compra uns cabos eleitorais e tenta convencer que é o candidato ideal.
Outro importante recado foi a derrota dos candidatos ligados ao pretensioso chamado “rei da baixada”, fez suas incursões em Meriti, pedindo que votasse nos seus candidatos para que pudesse ser em 2004 Prefeito de Meriti. Seu candidato a Deputado Federal (o Doutor) não conseguiu aqui ter mais votos do que a Deputada Federal (a amiga sempre presente) em sua cidade. Sua filha, aqui fez vários comícios e caminhadas, com críticas veementes ao Governo Municipal (muito fácil em uma cidade com muitas carências e poucos recursos). O eleitor sabedor deste discurso não se convenceu já que seu irmão como mandatário em cidade vizinha faz um péssimo governo, tendo o “rei” como seu avalista.
A realidade dos fatos políticos difere da realidade dos fatos econômicos, esses são racionais e quantificáveis, aqueles são movidos pela emoção e pela conjuntura, explicáveis portanto, dentro da lógica intuitiva e subjetiva. Política antes de ser ciência é uma arte, que não usa tinta, mas pode pintar magníficos quadros, não toca música, mas pode compor belíssimas canções, não faz poesia, mas pode embalar os corações e a consciência de um povo. Não é privilégio das elites, mas é conquista de todo um povo.
De qualquer jeito Meriti avança pela vontade de seu povo, que na sua infinita sabedoria vai buscando soluções para seus graves problemas urbanos, sem deixar-se envolver pelo discurso fulo, demagógico, populesco e inconseqüente. A cultura e a sabedoria de um povo é o seu maior patrimônio e não pode ser destruído por qualquer aventureiro de palanque, ainda bem que a caixa eletrônica nos salvou dos incautos estelionatários eleitorais.


       
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