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Segunda-Feira, 06 de Setembro de 2010.

São João de Meriti


- O sanemaneto na Baixada Fluminense

- O I, o Flumen & Aedes Aegypti

- A Memória e a Saúde em Meriti

 

 

O "I", o "Flumem" & Aedes aegypti
Gênesis Tôrres
Professor de História, pesquisador e membro do IPAHB

Fiquei nestes dias pensando sobre a presença deste mosquito na região do Rio de Janeiro e Grande Rio. Suas perigosas incursões nos milhares de lares, pobres e ricos, nos morros e baixadas, na zona sul, na zona norte e na zona oeste. Dizem que ele é um mosquito que gosta de água limpa, de vasos de planta, de ambientes limpos, é um mosquito "ecológico". Não sou sanitarista, porém, lendo alguma coisa sobre a Baixada Fluminense, pude descobrir algumas preciosidades da etimologia e da topomínia desta região.

Na linguagem tupi-guarani o "I" significa água do "I"guassú, do Serapoh"I", do Mbirit"I" e ou Miriti, e outros topônimos da Baixada, como "I"pê, "I"panema, "I"piranga, "I"taguaí, "I"mbariê, "I"njuí, "I"guatemi, "I"guapé, "I"poranga, "I"pú e muitos outros que levaram nomes de rios, ruas, vilas e cidades. Do latim, herdamos a expressão "Flumem", que deu Fluminense, ou seja, terras de muitas águas. Viajantes que atravessaram o rio "Miriti" ao longo dos séculos iniciais da colonização chamavam-no de "rio dos mosquitos", fazendo alusão a um pequeno mosquito existente na região e que incomodava em muito os viajantes. Também Meriti parece ter originado da Palmeira Buriti, que cresce e se dissemina em locais onde a presença da água é abundante, é a palmeira que emite líquido.

A Baixada Fluminense possui uma área de aproximadamente 2 mil quilômetros quadrados e fica entre a Baía da Guanabara e o conjunto das montanhas que formam a Serra do Mar e Gericinó, origem de centenas de riachos que ajudam a formar os rios Meriti, Sarapuí, Iguaçu, Botas, Pilar, Utum, Estrela, Inhomirim, Morabay e Suruí, e no passado uma ou centena de lagoas, brejos e pântanos (hoje aterrados) pela ocupação imobiliária. Este era o ambiente que ecologicamente permitia a existência de uma infinidade de pequenos insetos, não propriamente transmissores de doenças, mas hospedeiros em potencial das doenças do homem branco. Na cadeia alimentar, esses insetos eram a refeição preferida dos pássaros e de outros pequenos animais. A floresta era o equilíbrio de todo o ecossistema.

Com a chegada do colonizador, foram dizimadas primeiramente as tribos indígenas. A seguir, vem o desbravamento das terras, o equilíbrio ecológico vai sendo ferido e as florestas viram campos. O clima torna-se mais seco, as chuvas diminuem, os pássaros, os pequenos animais roedores e os jacarés vão desaparecendo. Muda-se a fisionomia de uma baixada selvagem, íntegra e imponente. É a civilização.

Do início do século XVII a meados do XIX as lavouras de cana de açúcar, do milho, do arroz, da mandioca, do feijão e até do café nas encostas permitiram manter este equilíbrio, mesmo tendo que queimar lenha nas muitas olarias da região.

Com o advento da Estrada de Ferro, a locomotiva passou a ser a grande consumidora de lenha e carvão vegetal, e aí começa a destruição das poucas florestas ainda existentes na baixada. Os rios deixam de ter importância como meio de transporte fluvial. O solo, sem a presença de manto verde que o encobria, a cada chuva descarregava uma grande quantidade de entulhos e terra nos seus leitos, provocando o assoreamento e fazendo surgir novos pântanos.

Em 1855 temos a notícia da existência de febres palustres, causadas pela malária transmitida pelo mosquito Aedes aegypti e pelo Bacilo da Vibrio Cholerae (cólera morbus) transmitida pela água contaminada de fezes e alimentos crus. A este grande surto epidêmico seguiram-se outros de características endêmicas e epidêmicas. Assim foi na antiga Vila de Iguassú; nas Fazendas de São Matheus, hoje Nilópolis; nas de Manoel Coelho da Rocha, em Meriti e Belford Roxo; do Carrapato, em Meriti, dos Tavares Guerra; da Conceição, na Pavuna; e dos Telles, em Meriti, e muitas outras.

O número de mortos nestas freguesias, segundo Matoso Maia Forte, dizimou 2/3 dos escravos empregados no serviço fluvial. Nas fazendas de São Matheus e Cachoeira foram 51 casos com 21 fatais. Em Jacutinga e Meriti a epidemia foi mais persistente e, em 15 dias, registrou-se 338 casos com 121 fatais. Os casos do Rio de Janeiro não vamos aqui registrar, mas foram graves.

Se no século XIX os mosquitos perturbavam a vida das populações baixadenses, também não foi diferente nas primeiras décadas do século XX. A questão das doenças advindas das picadas dos insetos e levou os governos dos presidentes Nilo Peçanha, na década de 1910, e Getúlio Vargas, na década de 1930, a desenvolver grandes obras de saneamento na Baixada. Nesta tarefa destacaram-se dois grandes personagens: um sanitarista - Oswaldo Cruz - e outro Engenheiro - Hildebrando de Gois. O primeiro comanda a grande campanha de vacinação no Rio de Janeiro e Baixada Fluminense - mesmo contra a própria população, que ignorantemente resistia aos seus apelos, sendo até necessário usar a força policial. O segundo retilinizou rios e enxugou pântanos e brejos, o que permitiu não só ocupar novas áreas, mas combater na raiz os problemas que afligiam àquela população.

Neste sentido, vejo hoje que a Baixada Fluminense carece de obras sérias, no que toca ao saneamento, e que a população se conscientize de que habita uma região que possui uma longa história da presença de mosquitos hospedeiros de doenças próprias da civilização. Para combatê-los, é primordial e necessária a colaboração de cada cidadão, não deixando acumular em suas casas qualquer recipiente de água que não seja usado por dias seguidos.

Aos governos nas três esferas - federal, estadual e municipal e, em principal, os dois primeiros pelo montante de recursos que possuem -, assim como no passado, deixem de carimbar o mosquito de "federal" ou "estadual" e tratem de desenvolver as tarefas que lhes competem, promovendo o necessário equilíbrio ambiental e conscientizando com campanhas todos os segmentos da população.

O clima quente e úmido e mais a presença da água ensejam um perfeito criatório. A presença do homem contaminado e uma vez picado, possibilita a este mosquito retransmitir a doença a outro homem, e essa cadeia vai tornando a doença epidêmica, um processo simples e que não conseguimos entender ou se entendemos, não somos o bastante solidários e compreensivos para com os nossos da própria casa e para com os vizinhos. Você os cria em casa e depois culpa todas as autoridades. Sejamos pelos menos razoáveis e não hipócritas.

Sobe

 

A Memória e a Saúde em Meriti
Gênesis Tôrres
Professor de História, pesquisador e membro do IPAHB

Foto: Antonio Pinheiro

Nos anos de 1946 a 1956, a comunidade meritiense lutava bravamente, em um grande processo de mutirão para construir seu Hospital Geral. Sua inauguração em 1956 foi o resultado da participação do povo e da classe política, que através do mutirão, fizeram grandes campanhas de material de construção. O hospital pronto virou o grande referencial da capacidade organizativa da sociedade meritiense. Neste mesmo período funcionava na antiga Av. Tavares Guerra {hoje Nossa Senhora das Graças), no mesmo local da Inspetoria de Rendas, uma unidade de saúde do Estado, inaugurada por Honório Gurgel, por influência do Dr Oscar Pimenta Soares. Este Posto dava atendimento principalmente de medicina profilática, puericultura e clínica geral. Havia neste posto uma equipe, chamada de guarda mata-mosquito. Este posto funcionou sob o custeio do Estado do Rio até o final da década de 60, quando então foi transferido para o Vilar dos Teles. O referido posto teve suas origens na casa do Dr. Isaac Vernet que ficava na rua São Pedro, onde hoje localiza-se o estacionamento das casas Sendas.

Nesta época a população saltava de 50 mil para 200 mil habitantes. Aquela sociedade hegemônica cedeu lugar a uma sociedade heterogênea, enfraquecida e sem identidade, incapaz, portanto, de produzir referenciais, frutos do processo intenso das migrações internas.

Foi no governo do Interventor João Batista Lubanco (1970) que surgiu o Posto de atendimento da Rua Valério Vilas Boas, mais conhecido como "peuzinho". A esta altura, o Hospital Geral, orgulho do povo, já estava nas mãos de uma organização chamada de "mordomia", vivendo com verbas do antigo Inamps e com recursos advindos da própria comunidade.

Em 1970, o governador Jeremias de Mattos Fontes construiu o Posto de Saúde Aníbal Viriato de Azevedo, bem próximo à Prefeitura, vinha para fazer atendimentos nas profilaxias da hanseníase, tuberculose e nas campanhas de vacinação, sendo responsável também pela vigilância e fiscalização sanitária. A construção do Posto era bastante tímida e longe das necessidades maiores da população, haja vista que a população atingia a casa dos 300 mil habitantes. Em 1978, foi construído também pelo Estado (no governo Chagas Freitas) o PU de Coelho da Rocha, para atendimento de vacinação e programas de saúde pública. Ao final da década de 70 e início dos anos 80, Meriti já apresentava uma população de 390 mil habitantes e apresentava um dos maiores índices de hanseníase e tuberculose, doenças típicas da miséria ao lado das questões de higiene pública.

No início da década de 80, com o fim do regime de exceção, a grande massa urbana formada com o chamado "milagre brasileiro" vai às ruas, organiza-se como movimento de moradores e cobra soluções urgentes. Em principal, às questões de saneamento básico, entendendo que este era uma questão crônica de saúde pública.

Meriti acumulava vários déficits - habitacional, educacional e o mais grave de todos, da saúde. No tocante ao saneamento, 70% do esgoto domiciliar eram jogados a céu aberto, nas chamadas "valas negras" - as ruas como não havia qualquer tratamento, exceto nos corredores viários, essas eram intransitáveis. Não havia coleta do lixo eficiente, multiplicando lixeiras em cada esquina. O povo, para se livrar delas, ateava fogo, provocando em suspensão atmosférica uma quantidade de gases, fazendo de Meriti uma cidade cinzenta e com altos índices de poluição em resíduos sólidos em suspensão. O aspecto era desolador. Esses fatores, ao lado do estrangulamento do uso do solo, colaboravam para expulsar os recursos privados, fechando o ciclo da miséria.

Nesta mesma época, o Governo Federal iniciava a construção do que seria a Unidade Ambulatorial do INAMPS, que virou um esqueleto de concreto abandonado por 15 anos.

Em 1983, com a posse de Manoel Valença, ascendem as esperanças. Porém, a corrupção toma conta de seu governo e sob muita pressão popular, através do movimento de moradores, a Câmara, acuada, leva-o à Justiça e meses depois, o governo estadual reconheceu as denuncias fazendo uma intervenção no município.

O governo do Interventor José Cláudio da Silva elaborou um plano emergencial de saúde. Na questão do lixo, contou com o apoio da Comlurb, recolhendo emergencialmente o lixo e, ao mesmo tempo, vendia para a Prefeitura caminhões reformados, aumentando a frota. Com aquisição de pá mecânica e tratores, procurou fazer uma grande faxina na cidade: o destino do lixo era a região margeando o Rio Meriti, hoje Juriti, Dique e Parque Analândia.

Nos equipamentos de saúde elaborou o projeto "Medico de Comunidade", através de Módulos de Saúde em diversas comunidades, como: Vila Jurandir, Morro das Pedras, Vila São José, Morro de Santa Helena, Gato Preto, Av. Tucão, Parque Alian, Vila União, Éden e Araruama. Estes módulos constavam de uma cama do tipo maca, uma balança pediátrica, uma balança de adulto e um armário. Era assistido por um médico - dependendo da disponibilidade podia ser pediatra, ginecologista ou clínico geral -, e uma auxiliar de enfermagem, funcionando em espaços cedidos pela própria comunidade. No Araruama e Morro das Pedras, foram construídos os novos espaços e nos outros lugares funcionavam em Associação de Moradores, Igrejas ou espaços arrumados também pela comunidade. Nos governos de José de Amorim e Adilmar Arcênio, estes módulos evoluíram para mini-postos com construções da própria Prefeitura, assim aconteceu no Gato Preto, Av. Tucão, Parque Alian, Vila Rosali, Vila Norma, Vila São José, Vila Tiradentes e Vila Jurandir.

Ainda no final dos anos 80, a população de toda a Baixada continuava a cobrar um projeto de saúde mais eficiente, fechando inclusive, a Rodovia Presidente Dutra, clamando por "Baixada já - S.O.S saúde". Nascia assim, no Governo Moreira Franco, o projeto chamado de "Unidades Mistas". Em Meriti, foram implantadas nos bairros Sumaré, Vila União, Vila São João e Éden. Os recursos financeiros vieram dos governos Estadual e Federal, os recursos e administração de pessoal era feito pelo Instituto Vital Brasil.

Com a inauguração, em 1996, do Posto de Atendimento Médico no Jardim Meriti e com a saúde já municipalizada, a cidade sem nenhum referencial de atendimento, transforma-o em "Posto de Urgência" ou, como queira, "Emergência".

Em 1992, faltando dois dias para o final do Governo Moreira, chega ao Município os termos da Municipalização de todo o Sistema de Saúde, ou seja, a responsabilidade com a saúde passava a ser da municipalidade. Um sistema anacrônico, confuso e complexo, que tinha e, ainda tem no seu bojo, funcionários federais, estaduais e municipais, com trabalhos iguais e salários desiguais, com planos de carreira, filosofias de trabalho e métodos de atendimento diferenciados, além de outras questões que travam o bom funcionamento de um dos mais sérios sistemas de atendimento à população.

Os recursos financeiros deste sistema são provenientes do erário federal, estadual e municipal. Esses recursos são amarrados a uma camisa de força - os critérios de repasses estão ligados à capacidade de atendimento e à competência no gerenciamento. São fiscalizados ao nível municipal pelo Conselho Municipal de Saúde e pela Câmara de Vereadores; ao nível estadual, pelo Tribunal de Contas; e pelo Governo Federal, através SUS. Tudo isto fez e faz da saúde uma das mais complexas máquinas administrativas do município.

A capacidade hoje instalada, acrescentando um hospital geral, já prometido pelo atual Governador Garotinho em área cedida pela municipalidade, aliado a um bom atendimento, ao lado das unidades já existentes, acrescentando um eficiente gerenciamento, com recursos descentralizados, poderia nos dar uma saúde nota 10. No entanto, do jeito que se encontra o atual sistema, os governos municipais administram crises e não soluções.

O Governo Antonio de Carvalho tem feito grandes avanços ao atacar os problemas da saúde na sua raiz, com erradicação de valas, calçamento dos morros, possibilitando recolher o lixo aonde nunca se chegou. Aumentou o atendimento materno-infantil, com programas para as parturientes, a construção do Hospital Infantil (Himac) e ainda dotando as unidades já existentes de equipamentos modernos para exames. Na questão ambiental, tem procurado fazer monitoramento do ar, buscando soluções com projetos de reflorestamento.

Acredito que uma das saídas é a transformação de todo o sistema em "Fundação Municipal de Saúde", recebendo recursos das três esferas do poder, contando com uma estrutura de gerenciamento própria das fundações, podendo ser mantido o Conselho Municipal de Saúde.


       
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