| RESUMO
HISTÓRICO DA BAIXADA FLUMINENSE
Após
a expulsão dos Franceses e o conseqüente aniquilamento dos
índios Tupinambás é fundada em 1565 a Cidade do Rio
de Janeiro. Iniciava a partir desta data a distribuição
de sesmarias em todo o recôncavo da Baía de Guanabara. Liberada
a terra dos perigos que poderiam oferecer as comunidades indígenas,
é dado início à penetração no seu interior
através de seus principais rios. Nascia no seu entorno dezenas
de engenhos de açúcar, construções de igrejas
e pequenas povoações, muitas delas origem dos municípios
de hoje.
As bacias dos rios Meriti, Sarapui, Iguaçu, Inhomirim, Estrela
e Magé foram as primeiras a serem ocupadas. Em suas margens nascem
os portos de embarque. Bastante movimentados com a presença de
tropeiros e de embarcações que subiam e desciam levando
mercadorias da Europa para os engenhos e destes com seus produtos para
a cidade do Rio de Janeiro, alem dos excedentes para o Reino. Os próprios
portos eram transformados em importantes celeiros.
Os Engenhos de Cristóvão Barros em Magé no ano de
1567 e o de Salvador Correia de Sá na ilha do Governador, foram
os primeiros a fumegar no atual território fluminense, após
o fracasso da Capitania de São Tomé, de Pêro de Góis,
com as suas fábricas de açúcar da Vila da Rainha
e das margens do Itabapoana. Em 1584, menciona Anchieta “muitas
fazendas pela baía dentro” e no ano seguinte diz ele ser
a “terra rica, abastada de dados e farinhas e outros mantimentos,
tem três engenhos...”
No século XVII o número de engenhos rapidamente crescia
e o açúcar iria absorver quase toda a iniciativa dos fazendeiros
do recôncavo da Guanabara. Cerca de 120 engenhos são levantados
em torno da baía, e é o açúcar do recôncavo
que vai afinal, como nos demais portos primitivos, erguer a economia da
noviça cidade Rio de Janeiro. É também o açúcar
o grande impulsionador do índice demográfico com a crescente
entrada de africanos para as lavouras.
A paisagem natural vai deste modo modificando-se, fazendo aparecer os
primeiros clarões nas florestas, não longe da entrada da
baía começa a projetar toda uma população
agrícola sobre os enflorestados morros do recôncavo e os
intermináveis pântanos e alagadiços marginais.
O marco inicial da colonização no Vale do Rio Iguaçu
foi a fazenda São Bento, teve sua origem nas terras doadas pela
Marquesa Ferreira ao mosteiro de São Bento em 1596. Esta herdeira
era viúva de Cristóvão Monteiro, primeiro proprietário
das sesmarias ofertadas por Estácio de Sá no ano de 1565
em terras hoje pertencentes à cidade de Duque de Caxias.
Nesse local, os monges Beneditinos fizeram erguer inicialmente uma capela
dedicada a Nossa Senhora das Candeias. No século XVIII, as terras
passaram para as mãos da irmandade de N. Sra. do Rosário
dos Homens Pretos.
Era também sede de grande fazenda de São Bento, cuja atividade
econômica baseava-se na produção de farinha de mandioca
e na fabricação de tijolos.
Esta penetração teve início também com a fundação
das primeiras igrejas e capelas. Uma das regiões logo de começo
exploradas foi a das bacias do Meriti, do Sarapui e do Iguaçu.
É improvável, no entanto de fácil compreensão,
que os primeiros núcleos de povoação não surgiram
em torno de uma atividade puramente econômica, o colonizador era
um homem extremamente devoto, ou quando não, demonstrava a sua
religiosidade como forma de justificar o aquinhoamento de longas extensões
de terras em nome da fé católica.
A presença das capelas e igrejas numa determinada região,
demonstrava a importância que aquele território representava
perante o poder secular e o poder eclesiástico. Essa célula
inicialmente embrionária daria o surgimento de uma aldeia, uma
freguesia, uma vila e mais tarde uma cidade.
Meriti assim teve as seguintes capelas descritas por Pizarro: a de São
João Baptista, fundada pelos moradores de Trairaponga em 1645,
em local desconhecido. Esta Capela funcionou como Matriz até o
ano de 1660. Com o crescimento de uma vila próximo ao Rio Meriti
(atualmente centro da Pavuna e do Município de Meriti), mandou-se
construir em 1660 uma outra de pedra e cal (na Pavuna), transferindo inclusive
a pia batismal, o que demonstraria a importância que este sítio
assumia junto ao porto da Pavuna, que naquele momento já contava
com uma grande quantidade portos, que escoavam a produção
agrícola como o milho, a mandioca, o feijão, o arroz, legumes,
o açúcar e a aguardente e ao mesmo tempo recebia os produtos
importados, já que a localidade da Pavuna e Meriti, além
de serem portos fluviais era também o melhor ponto onde se entrava
na Baixada pelos caminhos de terra firme, assim funcionava na localidade
da Pavuna e do Meriti um verdadeiro entreposto comercial com toda a infra-estrutura
com armazéns, trapiches, vendas e hospedarias. Por aqui passaram
as pedras, azulejos, santos, móveis, pratarias, e outras quinquilharias
que serviriam para ornamentar igrejas e fazendas que se construíram
nas freguesias de Meriti e Jacutinga.
O ciclo do ouro ocorrido no interior do Brasil, traria importância
para a ampliação dos caminhos da baixada. Após o
abandono do Caminho dos Guaianazes que partia de Parati, abriu-se um novo
caminho através da Baixada com ligação direta entre
o Rio de Janeiro e as Minas, era o Caminho Novo de Garcia Paes em 1704
– passando por Xerém, Pilar e descendo o Rio Iguassú
até o Rio de Janeiro.
Em 1724 abriu-se outro por Bernardo Soares de Proença, descendo
a Serra de Estrela, atingia o Rio Inhomirim e o Estrela, onde existia
o porto e indo em direção do Rio de Janeiro. Formando ai
um importante Arraial que se transformou em Vila em 20 de Julho de 1846.
A Vila da Estrela foi próspera, por ela passou a maior parte do
ouro produzido na região das gerais, era o ponto final do caminho
que durante mais de século recebia todos que se dirigiam ao interior.
Pelas águas do Rio Iguassú desceram a produção
de café do vale do Rio Paraíba do Sul, atravessando a Baía
em direção a cidade do Rio de Janeiro. Seu porto com uma
dezena de armazéns em sua volta, atraiu para a localidade um grande
contingente populacional, que se dedicaram nas mais diversas atividades
de serviços, o arraial cresceu e virou vila em 15 de Janeiro de
1833. Era a mais próspera das Vilas Fluminenses, possuidora de
todos os Órgãos Públicos.
O café foi plantado também nas encostas da serra do mar
em Iguassú no século XIX, gerou tanta riqueza que promoveu
a abertura em 1822 pela Real Junta do Comércio uma nova estrada
a do "Comércio", ligando-se também a outra posteriormente
construída a estrada da polícia que passava por Belém,
dirigindo- se ao Rio Preto, este caminho passou a denominar-se "Caminho
do Comércio”, porém, só a partir de 1837 começaram
os estudos para o seu calçamento, cujo trabalho ficou sob responsabilidade
do coronel de engenheiros, Conrado Jacob de Niemeyer.
Na primeira metade do século XIX o mundo conhecia a segunda fase
da revolução industrial - a dos transportes. A grande novidade
era o barco a vapor e a locomotiva sobre trilhos. No Brasil, Irineu Evangelista
de Souza, o Barão de Mauá, lançava com o apoio de
capitais privados, a primeira ferrovia ligando o Porto Mauá –
depois Estação da Guia de Pacopaíba à Fragoso
e Inhomirim no pé da serra da Estrela, num percurso de 15,5 km.
Esta inauguração lançou as bases de uma grande transformação
que se operaria ao longo da 2ª metade do século XIX, mudando
completamente a configuração da geografia urbana da baixada.
A ferrovia num movimento retilíneo rasgou a baixada, diferentemente
do caminho seguido pelos rios em meandros. Para a construção
das ferrovias aterraram-se pântanos e brejos e desmatou florestas,
de forma que a natureza sofreu grandes agressões.
No entanto, as grandes transformações ocorreram no processo
de ocupação humana. A primeira linha de construção
foi em direção à região produtora de café.
A Estrada de Ferro Pedro II (hoje Central do Brasil), chegou às
cidades das encostas da serra do Gericinó e sul da serra do Mar
em 1858 juntamente com Maxambomba (atual Nova Iguaçu), Queimados
e Japeri.
Em 1876 com o objetivo de captar água para a cidade do Rio de Janeiro
foi construída a estrada de Ferro Rio D’Ouro, à medida
que avançava ia transportando os tubos de ferro e demais materiais
completando as obras de construção das redes de abastecimento
d’água. No entanto, foi somente em 1883 ainda em caráter
provisório que começaram a circular os primeiros trens de
passageiros que partiam do Caju em direção à represa
Rio D’Ouro. Mais tarde esta ferrovia foi dividida em três
sub-ramais: Ramal de São Pedro, hoje Jaceruba; ramal de Tinguá,
que se iniciava em Cava (Estação José Bulhões);
e o ramal de Xerém, partindo de Belford Roxo.
Em 23 de abril de 1886 é inaugurada a Estrada de Ferro Leopoldina
Railway, concessionária da The Rio de Janeiro Northern Railway
Company – era a primeira concessão para uma estrada de Ferro
que, partindo diretamente da cidade do Rio de Janeiro, alcançava
a região serrana de Petrópolis.
A 28 de fevereiro de 1884 iniciou-se o trabalho para assentamento dos
trilhos, o que levaria dois anos, até sua chegada em Merity (atual
Duque de Caxias),
A estas ferrovias seguiram outras de menor importância, mas que
faziam ligações com ramais auxiliares e complementares às
linhas principais. Elas surgiram em um momento que a baixada não
possuía estradas, apenas alguns caminhos carroçáveis
que em tempos de chuvas eram intransitáveis. O meio de transporte
comum era no lombo dos animais ou ainda através dos rios. A locomotiva
passou a ser a melhor opção não só de passageiros
mas também para o transporte de mercadorias.
A população cansada dos naturais isolamentos, das doenças
ribeirinhas começa a mudar-se para as margens das ferrovias, em
principal nas paradas dos trens – onde se tinha água e lenha
que serviam como fonte de energia para a locomotiva. Nestas paradas surgiam
pequenas atividades de comércio, cortadores de lenha, carvoeiros
e homens de serviços em geral. O crescimento rápido desta
população fez destas paradas importantes estações
que serão embriões dos futuros distritos de Nova Iguaçu,
como Nilópolis, Queimados, Japeri, Merity, Belford Roxo, Pilar,
Xerém e Estrela.
O assoreamento dos rios causado pelo desmatamento, as febres palustres
e o fim da escravidão apressaram a decadência econômica
da Baixada, o que levou a população em busca do Rio de Janeiro
ou outras áreas produtoras para sobrevivência.
A expansão urbana neste século deu-se com a expansão
das ferrovias. A venda de terras, outrora fazendas, retalhadas em lotes
e vendidas a preços baixos para a moradia ou transformadas em sítios
para o plantio de laranjais, estimulados pelos governos bem como a valorização
no mercado mundial. Pelos diversos distritos de Nova Iguaçu cultivaram-se
laranjais que ocuparam os morros e as colinas, fazendo a riqueza dos chamados
capitalistas da laranja.
As oscilações do mercado mundial com as guerras, as técnicas
impróprias para o cultivo e a valorização de terras
para fins urbanos após o saneamento, formaram a decadência
da citricultura nesta região, dando lugar às “cidades
dormitórios” de uma população laboriosa que
se deslocavam para o Rio de Janeiro, diariamente, em busca do mercado
de trabalho.
O processo desenvolvimentista inaugurado com a revolução
de 1930, a capitalização do campo, a seca no nordeste, a
saída em massa do campo e a crise no sistema de parceria levaram
ao êxodo rural. O inchaço populacional nos grandes centros
urbanos e a exploração imobiliária pelo aumento constante
do metro quadrado do solo na capital, acaba empurrando grandes contingentes
populacionais, para estas históricas terras.
As fazendas fracionadas em sítios e chácaras com seus imensos
laranjais e horti-fruti-granjeiros, transformam-se em áreas de
loteamentos, de grilagem e ocupações irregulares. Freguesias
viram Distritos e estes em municípios. A Estação
de Merity, com seu povoado em volta, vira o 8º Distrito em 1931 com
o nome de Caxias e São Matheus vira 7º Distrito com o nome
de Nilópolis, todos desmembrados de Meriti, que pertencia a Nova
Iguaçu. Após o regime de exceção, na esteira
do populismo, o 8º Distrito emancipa-se ganhando status de Município,
levando consigo São João de Meriti, que é transformado
em seu 2º Distrito. São João de Meriti, não
se conforma e em 1947, emancipa-se de Duque de Caxias e, na mesma lei,
Nilópolis de Nova Iguaçu.
Envolvida com enormes conflitos ambientais, graças a um crescimento
urbano pouco planejado, onde temos bairros residenciais convivendo com
industrias de grande potencial poluidor, não só nos rios,
com seus despejos in natura em águas que deságuam na Baia
da Guanabara, como na atmosfera, agravada por sua posição
geográfica entre o mar e a serra, dificultando ainda mais a dispersão
de poluentes como o monóxido de carbono gerado de veículos
automotores.
Entretanto, entre a degradação dos manguesais e o abandono
dos nossos sítios históricos e arqueológicos, vamos
encontrar ainda uma flora exuberante alimentando a bio-diversidade de
nossa região.
É templo de salvá-las: rios, matas, cachoeiras, sítios
e prédios históricos devem ser priorizados não só
sobre o ponto de vista cultural, mas como fator vital de sobrevivência,
na preservação de recursos naturais como a água.
Temos no Nordeste brasileiro, quadros sombrios, com a devastação
de florestas durante séculos, que levaram a falência, seus
recursos hídricos.
Com um potencial tão rico em bio-diversidade, turismo e ecologia
inexplorado de nossa região, aguarda o trabalho dos nossos governantes,
pois somos na Baixada Fluminense os primeiros no Brasil
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