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Sexta-Feira, 21 de Novembro de 2008.

São João de Meriti


- Os Portos fluviais da Baixada Fluminense no relato dos viajantes
- Estrada de ferro Leopoldina Railway

- Estrada de Ferro Rio D'Ouro

 

 

Estrada de Ferro Leopoldina Railway
Guilherme Peres
Pesquisador e membro do IPAHB


A estrada de Ferro Leopoldina Railway, concessionária da The Rio de Janeiro Northern Railway Company - cujo primeiro nome é uma homenagem à princesa D. Leopoldina, era a primeira concessão para uma estrada de Ferro que, partindo diretamente da cidade do Rio de Janeiro, alcançasse a região serrana de Petrópolis. Concedido em 4 de novembro de 1882, pelo decreto nº 8725 a favor de Alípio Luis Pereira da Silva, com privilégios durante setenta anos, tendo sido seus estudos aprovados em 15 de setembro de 1883.

A 28 de fevereiro de 1884 iniciou-se o trabalho para assentamento dos trilhos, o que levaria dois anos, até sua chegada em Meriti (atual Duque de Caxias), em 23 de abril de 1886.

Partindo da sua estação inicial em São Francisco Xavier, seguia em direção às outras: Triagem, Bonsucesso, Penha e Meriti. Os outros pontos do percurso eram simples parada: Benfica, Amorim, Ramos, Olaria, Brás de Pina, Cordovil e Vigário Geral.

O prof. Rogério Torres, em recente crônica, comentando a entrevista do antigo morador José Luiz Machado (Machadinho) publicado no jornal "Tópico" em 1958, quando da chegada desta ferrovia ao vale do Meriti, assim registra:
"Nessa Meriti, de população rala e devastada pela malária, quatro famílias se destacavam, por serem donas de engenho no local; eram elas: a do capitão Luís Antônio dos Santos (Lulu dos Santos), dona da fazenda do Pau-Ferro, no Parque Beira-Mar; a do coronel Macieira, proprietário da fazenda do Engenho Velho, no 25 de Agosto; a de Antônio Tomé Q. Menezes, da fazenda da Vassoura, no Gramacho; e a de Antônio Telles Bittencourt, da fazenda Vassourinha, no Parque Lafaiete".

Machadinho também descreve os primeiros caminhos que atravessavam a região:
"A rigor, não havia ruas em Meriti, apenas precários caminhos. As principais vias eram a Estrada da Freguesia Velha, atual Avenida Nilo Peçanha, que ligava Meriti a Quibandê (São João de Meriti); Estrada da Covanca, que começava na Estrada da Freguesia Velha e terminava no Porto da Chacrinha, atualmente constituída pela Rua Mauriza e Estrada da Várzea; Estrada do Sarapuí-Pequeno, atual Avenida Duque de Caxias; Estrada do Engenho, ligando o Porto do Engenho à fazenda do Pau-Ferro, hoje Avenida Presidente Vargas; Estrada do Pau-Ferro, que ligava a Estrada do Sarapuí-Pequeno ao Caminho da Trairaponga, depois de passar pela Jaqueira (Centenário) até a Chacrinha".

Antes de 1897, quatro trens trafegavam diariamente, na única linha que até então existia, com desvios: em Bonsucesso, Penha e na Parada de Lucas.

Em Meriti, as obras da construção da ferrovia exigiram extensos aterros, dificultando a drenagem de uma região pantanosa, onde florescia a tabôa, fonte de renda de uma população escassa que se limitava a extraí-la para confecção de esteira e lenha para fabricação de carvão, transportando-os para a capital, aproveitando o deslocamento rápido da nova ferrovia.

Os trabalhos continuaram com a extensão da ferrovia até o entroncamento da sua linha em Inhomirim, principal tronco para a subida da serra em conjunto com a Companhia Estrada de Ferro Príncipe do Grão Pará, que partia do Porto de Mauá até sua chegada em Petrópolis.



Saneamento

No principio do século XX, Meriti (Caxias) era um abandono completo. As obras de saneamento iniciadas com a República nunca foram continuadas. No governo Nilo Peçanha, verificaram-se alguns ensaios, abandonados na gestão Hermes da Fonseca.

Esta região de charcos e pantanais estava entregue aos focos de malária, que o mosquito anofelino teimava em contaminar. Até que em 1933 foi criada a Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, subordinada ao Departamento de Portos e Navegação do Ministério da Viação e Obras Públicas, dirigido pelo engenheiro Hildebrando de Góis. Com o dessecamento do solo e desobstrução dos rios, obras que se arrastaram até o final desta década, sob a direção do DNOS - Departamento Nacional de Obras de Saneamento, deixaram a Baixada pronta para receber sua ocupação através dos loteamentos.

Ocupação

Nos anos seguintes, a região começou a sentir os efeitos da expansão urbana:
"O primeiro loteamento feito em Meriti foi realizado pelo engenheiro Abel Furquim Mendes, que em 1918 dividiu uma área ao longo da via férrea, entre as ruas Pinto Soares e Manoel Reis. Estes lotes foram oferecidos a cinqüenta mil réis cada. Entretanto, a venda foi um fracasso".

Em 1922, começariam a surgir loteamentos que dariam origem a alguns bairros. O primeiro foi a Vila Centenário, de propriedade de D. Francisca Tomé, no local do antigo sítio da Jaqueira. A seguir, veio o loteamento da Vila Itamarati, de propriedade de Antônio Gonçalves Ferreira Neto. O terceiro loteamento foi o do Parque Lafaiete.

A primeira rua calçada foi a José Alvarenga, que na época se chamava Rua do Ingá, devido à presença de um frondoso ingazeiro nas imediações.

Em 1911, já funcionavam as estações de Gramacho, São Bento, Campos Elíseos, Primavera, Saracuruna e Parada Angélica.

O nome de "Merity" continuava denominando a estação local, apesar da população passar a chamar-lhe Duque de Caxias, por haver sido descoberto esta região, o local de nascimento do herói nacional, localizado na fazenda São Paulo, bairro da Taquara, e seu novo nome ter sido oficializado.

Liderado pelo Dr. Manoel Reis, influente político em "Iguassú", município ao qual pertencia Merity, foi feito em 1932 um "abaixo-assinado" ao então interventor do estado Dr. Plínio Casado, pedindo "a troca das tabuletas" da antiga estação.

O Correio de Iguassú, "vanguardeiro das grandes causas", assim registrou o "grandioso" evento no dia 22 de maio de 1932.

"Apesar de oficializada a nova designação, o nome de Merity continuava no alto da Estação local, causando a mais justa estranheza".

Procurando corrigir essa verdadeira anomalia, o Sr. Jayme Fischer Gambôa entrou em entendimento com os diretores da Companhia, não lhe sendo difícil conseguir aquiescência imediata para a mudança da referida tabuleta.

O jubilo do povo

"Ao meio-dia de domingo, chegava a Caxias o Sr. Interventor do município, ali aguardado pelos Srs. Horacio Soares, muito digno inspetor geral do tráfego da Leopoldina Railway, o Sr. Jaime Fischer Gambôa, representando o Dr. Manoel Reis, muitas senhoras, e senhoritas, representantes do povo e pessoas gradas".

Uma girândola de morteiros atroou ao ar à chegada do Dr. Arruda, fazendo ouvir a banda de música caxiense.

Ao ser descoberta a nova tabuleta com o nome de Caxias, tomou a palavra o Sr. Jayme Fischer Gambôa, que produziu o seguinte discurso, sendo aplaudidíssimo:
"Meus senhores: Reunidos nesta pequena festividade, os habitantes de Caxias vêm prestar seu preito de gratidão à Companhia Leopoldina, pela maneira gentil porque atendeu a solicitação para mudança da antiga denominação de nossa Estação".

Não somos dos que não cultuam o respeito às tradições, e se solicitamos a mudança que hoje se efetiva, não tivemos em mira diminuir o passado desta localidade, porém prestar uma homenagem a um grande vulto de nossa história e bem assim conseguirmos a harmonia entre a denominação dada pelos poderes públicos e o conhecimento pelo povo do novo nome de nossa ex-Merity".

Após a inauguração das tabuletas, os convidados dirigiram-se para o Cartório do Sr. Jayme Fischer Gambôa onde foram servidos chopp e sanduíches.

Fizeram ainda uso da palavra o capitalista residente em Caxias e um acadêmico de quem não soubemos o nome. Ambos demoraram-se em justos elogios à administração do Dr. Arruda Negreiros, detalhando as suas principais obras. Também a figura sugestiva do Sr. Jayme, a quem se devia a vitória daquele dia, mereceu os mais entusiásticos encômios por parte dos oradores.

As guirlandas

Caxias engalanou-se como nunca. Bandeirinhas multicoloridas drapejavam por todos os recantos, numa alegria de algumas aves ensaiarem o vôo para as alturas azuladas e distantes.

Eram já as últimas horas da tarde quando os convidados se retiraram, depois de renovados abraços ao valoroso Jayme por mais aquele triunfo que vinha de alcançar de dedicado amigo de Caxias.

Bibliografia

GOULART, Sílvio - "Correio de Iguassu" nº 59
Nova Iguassu - 1932 - RJ

SANTOS, Noronha - "Meios de transporte no Rio de Janeiro"
Biblioteca Carioca - 1996 - RJ

TORRES, Rogério - "As histórias de machadinho"
Revista Caxias Magazine - nº 175 - Dq. de Caxias - 2000 - RJ.

Sobe




Estrada de Ferro Rio D'Ouro
Guilherme Peres
Pesquisador e membro do IPAHB


A estrada de Ferro Rio D'Ouro começou a ser construída em 1876, para o transporte dos tubos de ferro e demais materiais, que completaram as obras de construção das redes de abastecimento d'água, asseguradas por um contrato assinado e dirigido pelo Dr. Paulo de Frontin, obrigando-a fornecer o precioso líquido no prazo de seis dias à Cidade do Rio de Janeiro.

Somente em 1883, em caráter provisório, começaram a circular os primeiros trens de passageiros que partiam do Caju em direção à represa Rio D'Ouro.

A Baixada Fluminense seria mais tarde dividida em três sub-ramais: Ramal de São Pedro, hoje Jaceruba; ramal de Tinguá, que se iniciava em Cava (Estação José Bulhões); e o ramal de Xerém, partindo do Brejo, hoje Belford Roxo.

Em 1896, época que os trens de passageiros passaram a circular com melhor regularidade partindo do Caju, atravessavam a rua Bela, Benfica etc. até passar por Irajá em direção à Pavuna.

Nesta estação, última parada antes de adentrar a Baixada, vê-se o antigo canal onde ficava o porto rodeado de trapiches outrora pertencentes ao Comendador Tavares Guerra. Próximo a ele, uma estátua em ferro de mulher oferecia água aos passantes por uma cornucópia, chamada de "Bica da mulata".

Nas terras de Meriti, os trilhos foram assentados sobre a antiga "Estrada da Polícia", que partindo da Pavuna, iam encontrar-se com as terras de "Iguassú", em continuação à estrada que, vindo da Corte, finalizava no Rio Preto.

A próxima estação é Vila Rosaly, que substituiu a "Parada Alcântara", e homenageou a esposa do Dr. Rubens Farrula, iniciativa da Empresa Territorial Lar Econômico, loteando as terras denominadas "Morro da Botica" ou dos "Barbados", em referência aos pastores israelitas que residiam próximo ao cemitério dessa comunidade e usavam barbas longas.

Coelho da Rocha - recebeu o nome do proprietário dessas terras, Manoel José Coelho da Rocha, que as cedeu para a passagem dos trilhos e colocação dos dutos, lutando posteriormente para sua transformação em transporte de passageiros. Seu neto Almerindo Coelho da Rocha, herdeiro do que sobrou da antiga fazenda criada por Cristóvão Mendes Leitão em 1739, desfez-se dela, vendendo-a para loteamento.

Belford Roxo - Antiga fazenda do Brejo e anteriormente, Calhamaço, lembrando o antigo canal do calhamaço aberto pelo Visconde de Barbacena (seu antigo proprietário), e que formava um braço do Rio Sarapuy. Sua estação recebeu este nome em homenagem a Raimundo Teixeira Belford Roxo, chefe da 1ª divisão da inspetoria de águas. Havia em frente a esta estação um artístico chafariz de ferro jorrando água, que o povo denominou de "Bica da Mulata", cuja figura mitológica de uma mulher branca sobraçando uma cornucópia oferecia aos passantes o líquido precioso, que a oxidação do ferro transformou em "mulata". Cópia da estátua existente na Pavuna.

Areia Branca - Como o nome sugere esta parada era cercada de extenso areal.

Heliópolis - Hélios = sol; polis = cidade, ou cidade do sol. Denominação de uma antiga cidade do Egito cujos habitantes adoravam o Deus Rá.

Itaipu - Ita = pedra; ipú = onde a água faz ruído, do Tupi-guarani, onde a água estronda.

Retiro - Nome do rio que esta ferrovia transpunha (Atual: Miguel Couto).

Figueira - Nome do proprietário das terras em que foram assentados os trilhos.

José Bulhões - Também proprietário da localidade pertencente à povoação de Cava, início de outro ramal com destino a Tinguá.

Cachoeira - Em suas terras corriam volumosas águas que desciam da Serra do Comércio, compostas dos rios Sabino e Boa Vista, servindo às adutoras do São Pedro.

Paineira - Homenageia uma árvore abundante no Sudeste, da família das malváceas (Atual: Adrianópolis).

Rio do Ouro - Faz jus ao rio do mesmo nome que corre pouco além de sua estação.

Santo Antônio - Neste trecho, a linha atravessava as terras da fazenda da limeira, pertencentes à Finnie, Irmãos & Cia., e corria sobre três pontilhões.

Saudade - Parada que assimilou o nome de antiga fazenda da região ainda dos tempos das sesmarias, pertencente a uma família portuguesa.

São Pedro - Era o ponto final da linha deste ramal situada na base da serra do Couto. Os trilhos, porém, prosseguiam para o caso de manutenção até atravessarem os córregos Maria da Penha, Jequitibá e o Rio São Pedro, chegando à casa do administrador, limites do morgadio de Matto Grosso e nas vizinhanças das terras do Marquês de São João Marcos, Pedro Dias Paes Leme, descendente de Fernão Dias, o caçador de esmeraldas (Atual: Jaceruba).



Sub-ramal do Tinguá

José Bulhões - Início dos trilhos que partiam em direção Norte em busca da raiz da serra do Tinguá.
São Bernardino - Situada em terras da fazenda São Bernardino, pertencente a Jacintho Manoel de Souza e Mello, um dos opulentos comerciantes da Vila de Iguassú, com a firma Soares & Mello, onde se vê sua bela casa assobradada em uma elevação do terreno e sinalizada por um caminho que, partindo da estação e ladeado por uma alameda de palmeiras imperiais, ia terminar à entrada principal deste palacete.
Iguassú - Sinalizava a região da antiga Vila de Iguassú. Com uma estrada perpendicular à linha, encontrar-se-ia esta antiga sede do Município e um dos portos fluviais mais notáveis da então Província do Rio de Janeiro.
Barreira - Próximo a esta parada, os trilhos cortam um morro argiloso, justificando seu nome. Aqui foram instaladas nos anos 30 as "granjas da Conceição" que dividiram uma área de 200 alqueires em lotes para chácaras e sítios.
Tinguá - Fim de linha na velha estação de passageiros. Situada à margem esquerda da serra velha, entretanto, seus trilhos continuavam para a direita na extensão de 6 km, até a represa do Bacuburú.

Sub-ramal do Mantiquira

Belford Roxo - Partindo desta estação em direção Nordeste, a linha transpõe o Rio Botas e atinge a garganta do Manuel Ignácio, cujo nome se refere a Manoel Ignácio de Andrade Souto Maior Pinto Coelho, Márquez de Itanhaém, senhor do morgadio de Matto Grosso, cujas terras pertenceram ao Brigadeiro Francisco de Paula de Bulhões Sayão. Assim como a Fazenda Monte Alegre, que entre seus herdeiros, contava com D. Alice Sayão, casada com o Dr. João de Carvalho Araújo, que viria a ser diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil.
Aurora - Nome também de uma velha fazenda que existiu na região, cortada pelos Rios Sayão, Botas e o Rio Baby.
Baby - Nome da parada, herdado do rio que era atravessado um pouco antes.
Parada 43 - Era antiga posição quilométrica da parada a contar do Caju (42.408m).
Lamarão - Do radical de "lama", significa a lagoa formada pelas chuvas nas depressões do terreno.
Mantiquira ou Mantiqueira - Antiga "João Pinto". Deu-lhe o nome o rio em cujo vale estende-se a linha que se dirige às represas do Galrão. É a estação de entroncamento da linha do Xerém. Está situada na velha Fazenda da Posse, pertencente à família Pereira de Sampaio. Dos mananciais que abasteciam o Rio de Janeiro é o Mantiquira o que contribuía com maior volume de água.
Galrão - Parada e fim da linha situada na antiga fazenda do Cônego Galrão, comprada pelo Governo em 1886 ao seu então proprietário Manuel Ubelhart Lengruber.

Mantiquira a João Pinto

Outro ramal partindo da Mantiquira tomava rumo Norte e passava por Piedade. Pequena parada, após transpor 8 bueiros até chegar em Xerém.
Xerém - Situada na povoação que constituiu a sede do 6º distrito do Pilar, no Município de Nova Iguaçu, tem seu nome originado no antigo proprietário dessas terras, o inglês John Charing, que desde 1725, estava ocupado em alugar barcos para transporte, através do Rio do Couto (ou Pilar), na passagem do Caminho do Ouro. Convivendo com escravos e pessoas de pouca instrução, teve seu nome modificado para Cherem e, posteriormente, definindo sua corruptela em Xerém.
João Pinto - Final da linha deste sub-ramal junto à represa para a captação das águas do rio do mesmo nome.
Registro - este sub-ramal partia de Xerém em direção às represas do Covã, Itapicú, Paraíso, Alfa e Perpétua.

Bibliografia

BARROS, Ney Alberto Gonçalves - "Estrada de Ferro Rio D'Ouro"
Apostila - 1999 - RJ.

SANTOS, Noronha - "Meios de transporte no Rio de Janeiro"
Biblioteca Carioca - 1996 - RJ.

VASCONCELOS, Max - "Vias Brasileiras de Comunicação"
Imprensa Nacional - 1935 - RJ.


       
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