
A estrada de Ferro Leopoldina Railway, concessionária da The Rio de Janeiro
Northern Railway Company - cujo primeiro nome é uma homenagem à princesa
D. Leopoldina, era a primeira concessão para uma estrada de Ferro que,
partindo diretamente da cidade do Rio de Janeiro, alcançasse a região
serrana de Petrópolis. Concedido em 4 de novembro de 1882, pelo decreto
nº 8725 a favor de Alípio Luis Pereira da Silva, com privilégios durante
setenta anos, tendo sido seus estudos aprovados em 15 de setembro de 1883.
A 28 de fevereiro de 1884 iniciou-se o trabalho para assentamento dos
trilhos, o que levaria dois anos, até sua chegada em Meriti (atual Duque
de Caxias), em 23 de abril de 1886.
Partindo da sua estação inicial em São Francisco Xavier, seguia em direção
às outras: Triagem, Bonsucesso, Penha e Meriti. Os outros pontos do percurso
eram simples parada: Benfica, Amorim, Ramos, Olaria, Brás de Pina, Cordovil
e Vigário Geral.
O prof. Rogério Torres, em recente crônica, comentando a entrevista do
antigo morador José Luiz Machado (Machadinho) publicado no jornal "Tópico"
em 1958, quando da chegada desta ferrovia ao vale do Meriti, assim registra:
"Nessa Meriti, de população rala e devastada pela malária, quatro famílias
se destacavam, por serem donas de engenho no local; eram elas: a do capitão
Luís Antônio dos Santos (Lulu dos Santos), dona da fazenda do Pau-Ferro,
no Parque Beira-Mar; a do coronel Macieira, proprietário da fazenda do
Engenho Velho, no 25 de Agosto; a de Antônio Tomé Q. Menezes, da fazenda
da Vassoura, no Gramacho; e a de Antônio Telles Bittencourt, da fazenda
Vassourinha, no Parque Lafaiete".
Machadinho também descreve os primeiros caminhos que atravessavam a região:
"A rigor, não havia ruas em Meriti, apenas precários caminhos. As principais
vias eram a Estrada da Freguesia Velha, atual Avenida Nilo Peçanha, que
ligava Meriti a Quibandê (São João de Meriti); Estrada da Covanca, que
começava na Estrada da Freguesia Velha e terminava no Porto da Chacrinha,
atualmente constituída pela Rua Mauriza e Estrada da Várzea; Estrada do
Sarapuí-Pequeno, atual Avenida Duque de Caxias; Estrada do Engenho, ligando
o Porto do Engenho à fazenda do Pau-Ferro, hoje Avenida Presidente Vargas;
Estrada do Pau-Ferro, que ligava a Estrada do Sarapuí-Pequeno ao Caminho
da Trairaponga, depois de passar pela Jaqueira (Centenário) até a Chacrinha".
Antes de 1897, quatro trens trafegavam diariamente, na única linha que
até então existia, com desvios: em Bonsucesso, Penha e na Parada de Lucas.
Em Meriti, as obras da construção da ferrovia exigiram extensos aterros,
dificultando a drenagem de uma região pantanosa, onde florescia a tabôa,
fonte de renda de uma população escassa que se limitava a extraí-la para
confecção de esteira e lenha para fabricação de carvão, transportando-os
para a capital, aproveitando o deslocamento rápido da nova ferrovia.
Os trabalhos continuaram com a extensão da ferrovia até o entroncamento
da sua linha em Inhomirim, principal tronco para a subida da serra em
conjunto com a Companhia Estrada de Ferro Príncipe do Grão Pará, que partia
do Porto de Mauá até sua chegada em Petrópolis.

Saneamento
No principio do século XX, Meriti (Caxias) era um abandono completo. As
obras de saneamento iniciadas com a República nunca foram continuadas.
No governo Nilo Peçanha, verificaram-se alguns ensaios, abandonados na
gestão Hermes da Fonseca.
Esta região de charcos e pantanais estava entregue aos focos de malária,
que o mosquito anofelino teimava em contaminar. Até que em 1933 foi criada
a Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, subordinada ao Departamento
de Portos e Navegação do Ministério da Viação e Obras Públicas, dirigido
pelo engenheiro Hildebrando de Góis. Com o dessecamento do solo e desobstrução
dos rios, obras que se arrastaram até o final desta década, sob a direção
do DNOS - Departamento Nacional de Obras de Saneamento, deixaram a Baixada
pronta para receber sua ocupação através dos loteamentos.
Ocupação
Nos anos seguintes, a região começou a sentir os efeitos da expansão urbana:
"O primeiro loteamento feito em Meriti foi realizado pelo engenheiro Abel
Furquim Mendes, que em 1918 dividiu uma área ao longo da via férrea, entre
as ruas Pinto Soares e Manoel Reis. Estes lotes foram oferecidos a cinqüenta
mil réis cada. Entretanto, a venda foi um fracasso".
Em 1922, começariam a surgir loteamentos que dariam origem a alguns bairros.
O primeiro foi a Vila Centenário, de propriedade de D. Francisca Tomé,
no local do antigo sítio da Jaqueira. A seguir, veio o loteamento da Vila
Itamarati, de propriedade de Antônio Gonçalves Ferreira Neto. O terceiro
loteamento foi o do Parque Lafaiete.
A primeira rua calçada foi a José Alvarenga, que na época se chamava Rua
do Ingá, devido à presença de um frondoso ingazeiro nas imediações.
Em 1911, já funcionavam as estações de Gramacho, São Bento, Campos Elíseos,
Primavera, Saracuruna e Parada Angélica.
O nome de "Merity" continuava denominando a estação local, apesar da população
passar a chamar-lhe Duque de Caxias, por haver sido descoberto esta região,
o local de nascimento do herói nacional, localizado na fazenda São Paulo,
bairro da Taquara, e seu novo nome ter sido oficializado.
Liderado pelo Dr. Manoel Reis, influente político em "Iguassú", município
ao qual pertencia Merity, foi feito em 1932 um "abaixo-assinado" ao então
interventor do estado Dr. Plínio Casado, pedindo "a troca das tabuletas"
da antiga estação.
O Correio de Iguassú, "vanguardeiro das grandes causas", assim registrou
o "grandioso" evento no dia 22 de maio de 1932.
"Apesar de oficializada a nova designação, o nome de Merity continuava
no alto da Estação local, causando a mais justa estranheza".
Procurando corrigir essa verdadeira anomalia, o Sr. Jayme Fischer Gambôa
entrou em entendimento com os diretores da Companhia, não lhe sendo difícil
conseguir aquiescência imediata para a mudança da referida tabuleta.
O jubilo do povo
"Ao meio-dia de domingo, chegava a Caxias o Sr. Interventor do município,
ali aguardado pelos Srs. Horacio Soares, muito digno inspetor geral do
tráfego da Leopoldina Railway, o Sr. Jaime Fischer Gambôa, representando
o Dr. Manoel Reis, muitas senhoras, e senhoritas, representantes do povo
e pessoas gradas".
Uma girândola de morteiros atroou ao ar à chegada do Dr. Arruda, fazendo
ouvir a banda de música caxiense.
Ao ser descoberta a nova tabuleta com o nome de Caxias, tomou a palavra
o Sr. Jayme Fischer Gambôa, que produziu o seguinte discurso, sendo aplaudidíssimo:
"Meus senhores: Reunidos nesta pequena festividade, os habitantes de Caxias
vêm prestar seu preito de gratidão à Companhia Leopoldina, pela maneira
gentil porque atendeu a solicitação para mudança da antiga denominação
de nossa Estação".
Não somos dos que não cultuam o respeito às tradições, e se solicitamos
a mudança que hoje se efetiva, não tivemos em mira diminuir o passado
desta localidade, porém prestar uma homenagem a um grande vulto de nossa
história e bem assim conseguirmos a harmonia entre a denominação dada
pelos poderes públicos e o conhecimento pelo povo do novo nome de nossa
ex-Merity".
Após a inauguração das tabuletas, os convidados dirigiram-se para o Cartório
do Sr. Jayme Fischer Gambôa onde foram servidos chopp e sanduíches.
Fizeram ainda uso da palavra o capitalista residente em Caxias e um acadêmico
de quem não soubemos o nome. Ambos demoraram-se em justos elogios à administração
do Dr. Arruda Negreiros, detalhando as suas principais obras. Também a
figura sugestiva do Sr. Jayme, a quem se devia a vitória daquele dia,
mereceu os mais entusiásticos encômios por parte dos oradores.
As guirlandas
Caxias engalanou-se como nunca. Bandeirinhas multicoloridas drapejavam
por todos os recantos, numa alegria de algumas aves ensaiarem o vôo para
as alturas azuladas e distantes.
Eram já as últimas horas da tarde quando os convidados se retiraram, depois
de renovados abraços ao valoroso Jayme por mais aquele triunfo que vinha
de alcançar de dedicado amigo de Caxias.
Bibliografia
GOULART, Sílvio - "Correio de Iguassu" nº 59
Nova Iguassu - 1932 - RJ
SANTOS, Noronha - "Meios de transporte no Rio de Janeiro"
Biblioteca Carioca - 1996 - RJ
TORRES, Rogério - "As histórias de machadinho"
Revista Caxias Magazine - nº 175 - Dq. de Caxias - 2000 - RJ.
Sobe
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