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Segunda-Feira, 06 de Setembro de 2010.
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São João de Meriti |
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Os
Portos fluviais da Baixada Fluminense no relato dos viajantes |
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de vilas no recôncavo até quase fins do segundo século
pode parecer-nos surpreendente em vista de um já sensível
crescimento demográfico. Atina-se, porém, de pronto, com as
causas dêste paradoxo histórico-social, reparando-se na formação
puramente agrária do povoamento, e na conexidade dos fatôres
geográficos regionais. É que as curtas distâncias da
cidade, o transporte fluvial e marítimo e a própria situação
financeira dos colonos, empenhados aos comerciantes do Rio de Janeiro que
lhes adiantava o capital em troca da produção agrícola,
quase impossibilitavam a presença de intermediários naqueles
portos. E assim, embora uma larga tarja de lavoura cintasse a Guanabara,
os produtos alimentícios de consumo imediato, tais como a farinha,
o feijão, o milho e o arroz, além das caixas de açúcar,
rumavam diretamente das fazendas para o mercado carioca. Tão lenta foi dessa maneira a germinação de vilas no recôncavo que, só em 1697, vimos aparecer a primeira delas, Santo Antônio de Sá. Os próprios governadores tão hábeis na multiplicação do fomento agrícola pela doação de sesmarias, não tinham elementos para concentrar em povoados essa população dispersa e a sua prolífica descendência. Outro poder, entretanto, paralelamente velava. Era a Igreja. Foi esta que, ciosa da organização e do domínio espiritual de seu crescimento católico, lançou, com a fundação de freguesias, as verdadeiras raízes das futuras vilas e cidades. Foi em torno dessas primitivas capelas elevadas a curtos que todas elas nasceram sob a vigilância dos vigários, posteriormente dilatando-se para agrupamentos urbanos com surto de um comércio local. Só mais tarde, no século seguinte, é que as estradas de penetração na cordilheira, iriam criar em seus pontos de partida e de junção com as vias fluviais, as “vilas de comércio” tais como Iguaçu, Pilar, Jucutinga, Estrêla, Inhomirim e Pôrto das Caixas, hoje reduzidas a ruínas com o advento das estradas de ferro. O caso de Iguaçu basta para exemplificar o que às demais aconteceu. Em 1789, nos tempos de D. Luís de Vasconcelos, tinha a freguesia 963 habitantes livres e 1219 escravos. Em 1795, já assinala PIZARRO um notável aumento da população que sobe a 6.142 indivíduos. A vila é criada em 1833, e, tendo nascido à beira do velho caminho para a serra, numa região de vários engenhos de açúcar “para cujos campos, cobertos de excelentes pastagens, se dirigia de preferência o gado que descia de Minas Gerais e de Goiás, destinado ao abastecimento do Rio de Janeiro” e cresce com o transporte do café do vale do Paraíba. Dali parte então para serra acima uma nova estrada, a “do Comércio”, ligando-se também a outra posteriormente construída, a “estrada da Polícia” que passava por Belém, dirigindo-se ao Rio Prêto. Iguaçu tornara-se um centro de comunicações, e continuamente se expandia com o crescimento comercio da cordilheira. “Na época em que o café passou a ser cultivado em mais larga escala nas fazendas do vale do Paraíba e ainda na zona iguaçuana, maior foi a prosperidade de Iguaçu, já vila, chegando a possuir grandes armazéns, verdadeiros trapiches e estabelecimentos comerciais que giravam com vultosos capitais. Tornou-se a vila um verdadeiro entreposto comercial, pois os negociantes aí estabelecidos, adquirindo o café que vinha de cima, supriam as fazendas do interior com as mercadorias necessárias ao seu consumo e custeio, muito embora tivessem a concorrência do comércio que se fazia através dos portos do Pilar, de Inhomirim e da Estrela. Toda essa atividade, porém, começa a declinar já em 1854, quando Mauá constrói a nossa primeira via-férrea das margens da Guanabara à Raiz da Serra de Petrópolis. Juntemos a isso a concorrência do pôrto da Estrêla, bem mais perto da zona central do vale do Paraíba, com navegação a vapor, onde o transporte de café iria subir a 30.000 toneladas anuais, descidas da serra em lombos de burros e ali embarcadas. Dessa maneira, a navegação do rio Iguaçu foi decaindo, e o caminho d’água descuidado entupindo-se com um aumento de pântanos que alimentados em tempos de chuva e à falta de escoamento alastraram-se por imensas superfícies. Com êles veio a malária, não bastando, a epidemia de cólera-morbo do Rio de Janeiro, de 1855, que invadindo as freguesias de Meriti e Jacutinga, assolou a sua zona rural. Em 1858, é construído o primeiro trecho da Estrada de Ferro Pedro II, do Rio de Janeiro a Queimados, seguindo logo para Belém em busca do vale do Paraíba. E o que restava do esplendor comercial da vila da baixada, sumiu-se então, definitivamente, com mais esta mudança radical das vias de transporte. Com tudo isto, nos fins do Império a vila ainda não morrera totalmente. Com a pertinácia peculiar aos povoados da Baixada que surgiram em zonas palúdicas, resiste ao aniquilamento pela inércia. Mas tudo é em vão. A fuga do braço escravo para o Rio de Janeiro vai apressar o seu desaparecimento final. “Iguaçu era um fantasma de vila, abandonada, cuja escassa população vivia presa do impaludismo. Restringia-se a sua existência à vida artificial que lhe dava o oficialismo: a Câmara Municipal, a vida judiciária, isto mesmo durante certas horas do dia. À noite, Iguaçu mergulhava no sono agitado pelos excessos da impiedosa malária”. Quando no começo da República, o futuro ministro Rodrigo Otávio para ali fora nomeado juiz, depara-se-lhe um quadro impressionante dos derradeiros estertores de uma vila outrora próspera. “A poucas horas da Ponta do Caju, pela estradinha do Rio d’Ouro, a vila de Iguaçu era então um povoado morto”. Construída principalmente por uma rua larga, sinuosa e longa, a vila tivera sua hora de prosperidade atestada pelas grandes casas de sobrado e vastos armazéns alpendrados, tudo, fechado, sem moradores. Ligada com o interior da baía de Guanabara por canais através da alagadiça Baixada Fluminense, Iguaçu fora, por muito tempo, o entreposto comercial entre o litoral e o sertão. Por aí chegava toda a produção do interior para consumo na cidade e exportação, por aí entrava tudo quanto o interior exigia para viver e trabalhar. E a vila crescia na agitação febril de cargas que chegavam e de cargas que partiam, em tropas na variada música dos cincerros, em carros de bois, na esfusiada langorosa dos eixos engraxados. A estrada de ferro, porém, drenando todo esse movimento comercial, reduziu Iguaçu à penúria e a levou à miséria e à morte. A vila se despovoou; os canais então abandonados, se atulharam de vegetação e de lodo; as águas crescem, cobriram todos os campos, tornando-os imprestáveis para qualquer cultura... Era esse o Iguaçu que encontrei ao tomar conta da minha judicatura. Só às quintas-feiras, dia de audiência, havia algum movimento na vila. A casa da Câmara reabria; além do pessoal do fôro, solicitantes e partes iam ao despacho do juiz. E tudo depois caía no habitual silêncio. Era quase o fim. Há muito que os próprios magistrados não moravam em Iguaçu, indo ali apenas em dias de audiência. Até o juiz residia em Maxambomba, posteriormente Nova Iguaçu, atual sede municipal, desde 1891. E, completamente abandonada, a velha cidade tomba em ruínas, desaparece engulida pela vegetação sob irremediável fatalidade. Mudam-se as vias de comunicação e carregam consigo as “vilas de comércio”. Hildebrando de Araújo Góis assim descreve “a antiga vila de Iguaçu que é atualmente mato fechado. Em uma excursão feita a essa região, tivemos oportunidade de observar uma rua antiga da cidade, cujo calçamento de pedras irregulares, o tempo não conseguiu ainda destruir. Esta rua também está sendo, aos poucos, integrada no seio da mata que a margeia de ambos os lados e encoberta pela vegetação que se desenvolve nos intervalos das pedras. Nela encontram-se vestígios da cadeia pública, representada pela fachada anterior, quase despercebida no meio do mato, tão denso que está atualmente. A fazenda de São Bernardino atesta, de algum modo, pela sua importância, os dias de esplendor que esta região já teve”. Idêntica à vida de Iguaçu foi a de todas as demais “vilas de comércio” do recôncavo. Foi a de Jacutinga e de Pilar, foi a de Estrêla, de Pôrto das Caixas e de Inhomirim, todas elas nascidas, evolucionadas e mortas, sob as contingências de um sistema de transportes que acabou e de vias circulatórias que se desviaram. O Brasil foi desde a sua descoberta, motivo de curiosidade de diversos visitantes, que deixaram relatos interessantes de estudos sobre a fauna, flora, iconografia, antropologia, etc. O surto da revolução industrial acontecido na Europa, no século XVII, acentuou ainda mais o despertar da pesquisa científica no campo das ciências naturais e das sociedades. Com a chegada da Família Real ao Brasil em 1808, e a abertura de seus portos para o comércio exterior, inúmeros viajantes para aqui acorreram em busca do exótico, do tropical, registrando o amálgama que iria formar a nossa cultura. Mesmo que quase nenhum desses testemunhos se se destacam rela qualquer literária, deixaram fartos documentos para reconstruirmos hoje certos traços seguinificativos da formação de nossa sociedade, que viram de perto e descreveram para a posteridade. Desses visitantes que desemborcaram logo após o decreto real, e visitaram a Baixada Fluminense através dos Portos Fluviais, destacamos: John Luccock, John Nawe, Saint-Hailere, Jean-Baptiste Debret, Sprix e Martius, Daniel Kidder, Charles Ribeyrolles |
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